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A mostrar mensagens de setembro, 2024

Felicidade tóxica

Estamos na Era das cenas tóxicas e da gratidão. Parece quase uma contradição, quando tudo é tóxico, termos de agradecer. Talvez seja por tudo ter, supostamente, um elevado potencial tóxico, que devemos agradecer quando somos abençoados pela ausência dessa maldita toxicidade. O encadeamento deste raciocínio até pode ter alguma lógica, mas se nos guiarmos por ele, tendemos a tornar-nos escravos - tanto da fuga à toxicidade alheia (porque geralmente é alheia e nós nunca somos os primeiros tóxicos da coisa), como da gratidão por termos de estar sempre gratos quando a nossa vida é isenta de algo "tóxico". Se não temos pessoas tóxicas, relações tóxicas, sentimentos tóxicos e/ou experiências tóxicas para combater, somos gente com umas vidinhas ocas e desinteressantes. Se somos os desinteressantes abençoados das vidas vazias, haverá sempre uma qualquer coisa potencialmente nociva da qual nos devemos esquivar para não sermos contagiados. Porque o importante é batalharmos para sermos f...

Heróis

Não acredito em actos heróicos e, muito menos, em heróis. Quem se diz herói e acredita que faz impossíveis mente, nem tanto aos outros, mas a si próprio. Fazemos o que temos de fazer, quando nos deparamos com os acontecimentos da vida. Fazemos porque temos de fazer e se fazemos é porque é possível. Não, amigos, não somos nenhuns super-homens (vá, ou super-mulheres; ou ainda super-qualquer-coisas, para não excluir ninguém nem ferir susceptibilidades), somos apenas pessoas à rasca que têm que se desenrascar. "Ah, e tal, que corajosa que ela foi..."; "ah, e tal, tu és um guerreiro!" A porra é que somos corajosos e guerreiros! Somos só gente a reagir a qualquer merda que nos aconteceu. E reagimos porque isso está na nossa natureza animal e humana. Reagimos porque tem de ser e a reacção ou o acto que provém dela não nos torna heróis nem concretiza impossíveis. Lamento desiludir-vos, meus queridos "heróis", mas vocês não são nada de mais, são tão somente mais un...

Às escuras

São várias as fases que a vida nos traz. Passamos por ciclo após ciclo. Umas vezes somos acrobatas, outras minúsculos trôpegos a cambalear por aí. Ginasticamo-nos e contorcemo-nos ao sabor das curvas e contra-curvas da vida. Umas vezes em pleno equilíbrio e noutras a beirar o abismo. Mas a beleza desta coisa que se diz ser viver é também essa, a de, apesar de às claras, não sabermos de antemão onde nos levam os caminhos que zizagueamos por aí e onde vamos parar. Ou talvez, no fundo, bem no fundo, todos saibamos que vamos acabar numa caixa debaixo da terra ou desfeitos em pó num qualquer cofrezito bafiento. Mas enquanto esse momento não chega, ginasticamos o corpo e a mente em busca de momentos, sensações, sentimentos, emoções, recordações. Entregamo-nos de corpo e alma a causas, pessoas, instantes... Nem sempre com a mesma vontade ou a mesma dose de entrega, é certo, mas empregamos esforços e energia em prol de algumas dessas dádivas que respirar nos vai permitindo. Somos generosos qua...

Será?

Descobri recentemente que há uma moda de fotos de perfil nas redes sociais com pessoas de braços abertos com ambientes vários a adornar o fundo. Podem ser praias paradisíacas, campos sem fim, cidades cosmopolitas, ou qualquer outra coisa dita maravilhosa. Parece que geralmente isto se relaciona com a capacidade dessas pessoas conquistarem cenas na vida. São fotos de pessoas que vão para além dos seus limites, atingem metas inalcançáveis, estão felizes com tudo o que a vida lhes dá, trazem muita "gratidão" nos seus coraçõeszinhos e são gente muito boa e abençoada. Eu que sou uma descrente, infeliz, céptica e não pratico o culto da gratidão (sou uma ingrata, portanto), quando vejo estas fotos tão felizes e graciosas, interrogo-me. Será que isto é mesmo real? Será que estas pessoas são mesmo tão felizes como parecem? Será isto apenas para convencerem os outros, e a si mesmas, que estão felizes? Será que isto não é apenas o resultado de uma imensa e profunda infelicidade e serve ...