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Arte

Quanto mais velha vou ficando mais valor vou dando à arte na minha vida. Tenho percebido que das coisas que me dá mais prazer é este contacto com obras de arte. Da literatura às artes visuais, passando pela música, pelo teatro, pela fotografia, cinema, e até pelo desporto (sim, também há arte no desporto) todas me preenchem de alguma forma. Contemplar a criatividade dos artistas e respirar-lhes as criações enche-me as medidas. Fico cheia por dentro. Como se me alimentassem e me preenchessem os espaços que tenho vazios, espaços vagos na alma a precisar de ocupar com ideias, peças e acontecimentos preciosos. Bebo arte pelos olhos, ouvidos, nariz e boca. Bebo arte, às vezes, até com as pontas dos dedos.  Sorvo-a, quase insaciavelmente. Porque quanto mais a consumo, mais sinto necessidade de consumir mais e mais. Talvez esteja a tornar-me numa viciada em criatividade alheia. Ou talvez esteja a fazer aquele balanço da vida (de que já falei aqui anteriormente) em que pesamos as coisas qu...

Jingle Bell

"O Natal é quando um homem quiser", dizem as más línguas. Mas o Natal também pode deixar de ser se um "homem" assim o quiser.  Eu quero. Não gosto do Natal. Aliás, detesto o Natal. Gostava que deixasse de existir. Gostava mesmo de ser eu a deixar de existir durante o Natal. Enfiar a cabeça na areia e fingir que não há Natal; que não vejo as luzes coloridas a iluminar as ruas; não oiço o Jingle Bell a toda hora; não vejo os presépios e árvores de Natal pelas janelas das casas; não vejo os presentes embrulhados em papéis foleiros, ou os pais Natal de pano pendurados nos prédios, nem as centenas de homens de barbas brancas falsas mascarados nos centros comerciais e feiras alusivas à época. Não gosto da cena religiosa, porque não gosto de religiões. Consigo vislumbrar alguma utilidade nelas para acalmar os espíritos e dar conforto às almas, mas acho-as "tóxicas" (empregando a palavra da moda). Acho que se tira muito pouco do bem que fazem às pessoas se pusermo...

Parto de luz

Há um consenso na paixão pelo pôr-do-sol. Vemos pessoas a fazer excursões às praias para o apreciar e viver o momento intensamente. Compreendo isso, também me deleito a ver o sol cair sobre as águas do mar. Há uma magia no acontecimento. Vemos o fecho do dia, e vamos ficando iluminados pela luz rosa, depois azul e, por fim, o lusco-fusco abraça-nos generosamente (adoro esta palavra "lusco-fusco"!). Sou adepta do pôr-do-sol, mas prefiro vê-lo nascer. Talvez porque na minha terra ele nasce sobre o rio, talvez porque sendo eu meia notívaga me encante da mesma forma que o pôr-do-sol encanta as pessoas que o vêem nos seus finais de dia. Talvez porque me traz uma nova esperança, uma ideia de recomeço, de renovação.  Talvez ainda porque era habitual vê-lo quando trabalhava no que realmente gosto de fazer.  Naquele tempo, terminava as minhas escritas e o sol nascia. Assim, como que a pôr um ponto final nos artigos que levava horas a redigir. Passava a noite a escrever; a elaborar tex...

Meio sonho, meio pesadelo

Esta noite sonhei que, de repente, entravas porta adentro, rasgavas-me a roupa, abraçavas-me como se o mundo estivesse todo no meu abraço, beijavas-me como se tivesses apenas um minuto para o fazer e dizias-me que a vida sem mim não fazia qualquer sentido... Sussurrasvas-me ao ouvido eternas juras de amor na linguagem que, num dia de delírios conjuntos, inventámos. Mas, de repente, enquanto ainda estava a meio deste encantamento, passaram a ser horas de levantar, lavar os dentes e ir trabalhar.  Acordei estremunhada, enrolei o meu coração sangrento em compressas esterilizadas e segui para mais um dia. Esta noite, tive um sonho. Meio sonho, meio pesadelo.

Perdida

Ando perdida e tenho tido alguma dificuldade em reencontrar-me. É como se estivesse constantemente à minha procura por becos e ruelas e me fosse escondendo a cada curva.  Há uma esquina e vejo, de relance, o meu braço que a cruza. Vejo o braço, mas não vejo mais nada. O resto do corpo já desapareceu. Por vezes, consigo vislumbrar o ombro, mas nada mais. Já fui, já passei para o outro lado da rua. Talvez isto esteja de alguma forma relacionado com a famosa meia-idade. Idade esta em que fazemos balanços do que fomos, do que ainda queremos ser e do que realmente somos, afinal. Na verdade, não sei muito bem... Não sei bem nem mal, não sei nada. As dúvidas estão centradas no que sou agora e no ainda quero vir a ser. Se é que sou e ainda virei a ser alguma coisa diferente do que fui ou do que sou, se sou... Se sou... Vivo nesta indefinição. Umas vezes parece-me que cheguei a uma conclusão, outras parece-me que está tudo ainda mais indefinido, como que enevoado, cheio de nuvens de incerte...

Espelho da alma

É incrível como o corpo reflete as dores e os prazeres da alma. Tenho-me observado neste campo e percebido que o meu estômago se fecha cada vez que me sinto angustiada. É como se ele não tolerasse mais nada para além da angústia que me assola, como se se enchesse e alimentasse dela.  Como se dissesse, se os estômagos pudessem falar, "Já chega! Deixa-me lá tentar digerir isto. Não me dês mais porcarias porque esta angústia já me dá água pela barba". Talvez o corpo seja uma espécie de espelho da alma que nos vai mostrando quando estamos a ir longe de mais, quando estamos a seguir caminhos que lhe são insuportáveis. Ao longo da vida, o meu corpo foi-me dando sempre sinais. Ora adoecia, ora fazia-se forte para superar as dores do coração. Parece-me que se temos de ouvir o coração, também devemos ouvir o corpo. Ambos dizem-nos muitas coisas dignas de serem escutadas com atenção. O problema estará em saber quando ouvir um ou o outro. Porque não são raras as vezes que se contradizem...

Sinto muito!

Sinto muito e penso demasiado. Tento interpretar constantemente o que sinto e é aí que mora a dificuldade. É aí que travo batalhas interiores gigantes, porque o turbilhão de estímulos que o que sinto provoca causa o caos cá dentro. Sei que as novas tendências da "psicologia de pacote", aquela que nos aparece em vídeos nas redes sociais, nos vende a ideia de que o "overthinking" é mau, porque nos desconecta dos sentimentos e nos impede de desfrutar as emoções. Mas comigo não é assim. É precisamente o contrário. Porque nunca me consigo desconectar daquilo que sinto. E pensar serve (ou tenta servir) para conseguir compreender aquilo que sinto, o que nem sempre é bem sucedido. Infelizmente. No entanto, não é por pensar em demasia que deixo de sentir e seguir o que me diz o coração. Sigo-o sempre, mesmo que antes disso o tente calar. E tento, tento tanto e tantas vezes... No fim, e bem cá no fundo, sei que é ele que tem sempre razão. Porque se eu não o seguir, deixarei d...

Progresso

Temos a sensação que evoluímos muito, que as tecnologias nos vieram trazer progresso e grande desenvolvimento. No entanto, continuamos em rebanhos a caminhar para as fábricas de produção em massa. Já não produzimos maquinaria ou bugigangas, é certo. Agora produzimos clientes felizes. Construímos utilizadores bem contentinhos, a pensar que nos importamos francamente com os seus problemas.  A nós, querem-nos ovelhas que trabalhem ao ritmo da inteligência artificial, mas com sentimentos humanos. Bem empáticos, porém com o foco nas avaliações que nos irão dar pelas nossas oito horas na fábrica de satisfação do cliente (e que atentemos aos números, sempre os números que irão graduar a nossa competência). Entramos à hora certa e saímos à hora possível; preferencialmente tarde para mostrar que estamos muito concentrados no objectivo de ver o utilizador sorrir. Temos o almoço cronometrado e os minutos dos xixis contados, qual fábrica em plena revolução industrial. Cocó? Só em casa, pois de...

Poço básico

Fazem-me falta os animais.  Em tempos, tive gatos, cães e cavalos. Com a maior parte dos cães não consegui encontrar a expressão certa. Nunca nos entendemos bem, apesar de gostar muito deles. Apenas um entrou de rompante no meu peito e, acredito, eu no dele. Também tive peixes e pássaros, mas esses não me trazem qualquer saudade. Que me perdoem. Dos gatos e dos cavalos falta-me o pêlo, o cheiro, o toque. Até as lambidelas pelas línguas de lixa dos gatos me carecem. Dou-me bem com eles. Até com os desconhecidos. Somos iguais, funcionamos da mesma forma, entendemo-nos bem. Há qualquer coisa para além da linguagem na nossa comunicação. Como se houvesse muitas palavras não proferidas nos nossos olhares. Não sei explicar, mas é qualquer coisa como se lêssemos os pensamentos uns dos outros; como se, ao nos cheirarmos, olharmos, sentirmos, percebessemos tudo uns dos outros. Falamos telepaticamente, talvez, se é que isso é possível. Não acredito nestas coisas espirituais, mas, de certa for...

Tudo, ou quase tudo, de mim

Ando a ler um livro chamado "Tudo do amor" que me tem dado pontos de vista diferentes sobre o assunto. Assunto difícil, é certo, mas muito digno de reflexão. Ainda mais observando-o sob uma perspectiva da evolução histórica tanto da sociedade, quanto das estruturas familiares e das relações. Não sei se toda a gente tem, como eu, algumas ideias preconcebidas sobre o amor. Ideias do género: "o amor não se entende, sente-se"; "no amor vale tudo, é deixar ir e ver o que acontece"; "sentimentos não se explicam"; e por aí fora. Se tem, este livro vem pôr em causa algumas destas ideias. Não que cheguemos à conclusão que elas estão necessariamente erradas, não estarão, de certo, em algumas situações; ou não quer dizer que, depois de lermos o livro, deixemos de acreditar nelas, mas dá -nos muito que pensar. Isso, sem dúvida. Na verdade, muitas destas ideias que eu tinha (tenho), estão a sair reforçadas depois de ter chegado a meio do livro (no final, isto...

O vizinho

Oiço o vizinho ressonar. Todas as noites, o som do sono dele atravessa as paredes e invade-me o quarto.  É quase como se estivesse aqui ao lado, paredes meias comigo. Com o que estará a sonhar, perguntou-me amiúde...  Que aventuras, fruto da sua imaginação adormecida, o farão respirar tão ruidosamente? Estará a escalar montanhas neste preciso momento? Ou voará pelos céus julgando-se uma águia em busca de presas?  Fugirá, em risco de vida, de inimigos cruéis? Ou acreditará que se não chegar à superfície da água a tempo morrerá afogado? Ou terá, apenas, o cérebro afogado num imenso vazio? Quiçá nada disso. Dorme e pronto!

Felicidade tóxica

Estamos na Era das cenas tóxicas e da gratidão. Parece quase uma contradição, quando tudo é tóxico, termos de agradecer. Talvez seja por tudo ter, supostamente, um elevado potencial tóxico, que devemos agradecer quando somos abençoados pela ausência dessa maldita toxicidade. O encadeamento deste raciocínio até pode ter alguma lógica, mas se nos guiarmos por ele, tendemos a tornar-nos escravos - tanto da fuga à toxicidade alheia (porque geralmente é alheia e nós nunca somos os primeiros tóxicos da coisa), como da gratidão por termos de estar sempre gratos quando a nossa vida é isenta de algo "tóxico". Se não temos pessoas tóxicas, relações tóxicas, sentimentos tóxicos e/ou experiências tóxicas para combater, somos gente com umas vidinhas ocas e desinteressantes. Se somos os desinteressantes abençoados das vidas vazias, haverá sempre uma qualquer coisa potencialmente nociva da qual nos devemos esquivar para não sermos contagiados. Porque o importante é batalharmos para sermos f...

Heróis

Não acredito em actos heróicos e, muito menos, em heróis. Quem se diz herói e acredita que faz impossíveis mente, nem tanto aos outros, mas a si próprio. Fazemos o que temos de fazer, quando nos deparamos com os acontecimentos da vida. Fazemos porque temos de fazer e se fazemos é porque é possível. Não, amigos, não somos nenhuns super-homens (vá, ou super-mulheres; ou ainda super-qualquer-coisas, para não excluir ninguém nem ferir susceptibilidades), somos apenas pessoas à rasca que têm que se desenrascar. "Ah, e tal, que corajosa que ela foi..."; "ah, e tal, tu és um guerreiro!" A porra é que somos corajosos e guerreiros! Somos só gente a reagir a qualquer merda que nos aconteceu. E reagimos porque isso está na nossa natureza animal e humana. Reagimos porque tem de ser e a reacção ou o acto que provém dela não nos torna heróis nem concretiza impossíveis. Lamento desiludir-vos, meus queridos "heróis", mas vocês não são nada de mais, são tão somente mais un...

Às escuras

São várias as fases que a vida nos traz. Passamos por ciclo após ciclo. Umas vezes somos acrobatas, outras minúsculos trôpegos a cambalear por aí. Ginasticamo-nos e contorcemo-nos ao sabor das curvas e contra-curvas da vida. Umas vezes em pleno equilíbrio e noutras a beirar o abismo. Mas a beleza desta coisa que se diz ser viver é também essa, a de, apesar de às claras, não sabermos de antemão onde nos levam os caminhos que zizagueamos por aí e onde vamos parar. Ou talvez, no fundo, bem no fundo, todos saibamos que vamos acabar numa caixa debaixo da terra ou desfeitos em pó num qualquer cofrezito bafiento. Mas enquanto esse momento não chega, ginasticamos o corpo e a mente em busca de momentos, sensações, sentimentos, emoções, recordações. Entregamo-nos de corpo e alma a causas, pessoas, instantes... Nem sempre com a mesma vontade ou a mesma dose de entrega, é certo, mas empregamos esforços e energia em prol de algumas dessas dádivas que respirar nos vai permitindo. Somos generosos qua...

Será?

Descobri recentemente que há uma moda de fotos de perfil nas redes sociais com pessoas de braços abertos com ambientes vários a adornar o fundo. Podem ser praias paradisíacas, campos sem fim, cidades cosmopolitas, ou qualquer outra coisa dita maravilhosa. Parece que geralmente isto se relaciona com a capacidade dessas pessoas conquistarem cenas na vida. São fotos de pessoas que vão para além dos seus limites, atingem metas inalcançáveis, estão felizes com tudo o que a vida lhes dá, trazem muita "gratidão" nos seus coraçõeszinhos e são gente muito boa e abençoada. Eu que sou uma descrente, infeliz, céptica e não pratico o culto da gratidão (sou uma ingrata, portanto), quando vejo estas fotos tão felizes e graciosas, interrogo-me. Será que isto é mesmo real? Será que estas pessoas são mesmo tão felizes como parecem? Será isto apenas para convencerem os outros, e a si mesmas, que estão felizes? Será que isto não é apenas o resultado de uma imensa e profunda infelicidade e serve ...

Preconceituosa me confesso...

O título desta coisa que hoje vos escrevo é (caso ainda não tenham reparado) "Preconceituosa me confesso", no entanto vou começar este escrito informando-vos de que não sou nada preconceituosa. Contraditório, certo? Certo! Não sou preconceituosa (agora podia continuar a escrever mais uns quantos parágrafos a dizer a mesma coisa, do tipo "o título diz que sou preconceituosa, mas eu não sou" e isto seria uma dissertação digna de valor em algumas áreas profissionais, mas não vos vou maçar com isso, porque se há coisa que respeito são as palavras, vá, e as pessoas que se dão ao trabalho de ler as minhas. E já vão perceber porquê). Mas, voltando a este meu preconceito gingão...  Quando me confesso preconceituosa, digo que o sou porque, tal como adoro palavras e as respeito, há algumas que me provocam urticária e, por isso, torno-me altamente preconceituosa quanto a essas palavras impronunciáveis, e só as pronuncio se cobertas por uma grande camada de escárnio e incluídas...

Inteira

Quem me dera voltar atrás, ir lá longe buscar-me, onde me deixei em pedaços espalhados pelo chão. Juntá-los e reconstruir-me. Tornar-me inteira como um dia fui.

O amor é um lugar notável

Dos vários amores que nos passam pelo peito, há poucos que se demoram. Amor que resiste à corrosão do tempo é amor valente, que abarca virtudes e defeitos. Amar virtudes é tarefa fácil e imediata. Por outro lado, amar imperfeições é raro, árduo até. Pertence apenas a amores imensos como são os próprios, os paternais ou os amorosos raros. Se o amor paternal é o mais simples de chegar a qualquer um de nós, porque o ser pequenino e indefeso que gerámos nos faz produzir oxitocina a jorros sempre que o, sequer, imaginamos, já o próprio e o amoroso não são tão comuns.  O próprio pode requerer uma vida inteira de treino e labuta dolorosa para se conseguir, primeiro, aceitar e, depois apreciar, aquilo que consideramos deficiente em nós.  Não sendo impossível, é uma empreitada quase interminável.  Características físicas que não encaixam nos nossos parâmetros de beleza mais primários; ou psicológicas que não nos favorecem e que desejámos sempre mudar, só são passíveis de serem gos...

Caixinha pequenina

Quando isto chegar ao fim, vou guardar as memórias dentro de uma caixinha bem pequenina. Não que elas sejam poucas ou pequenas, mas para que mais ninguém consiga encontrar essa caixinha para além de mim. Quero as memórias encolhidas para não me fazerem sofrer. Servirão só para me alegrarem os dias tristes. Nesses em que abrirei a caixinha e espreitarei lá para dentro, sei que inspirarei bem fundo para lhes sentir o cheiro, levarei a lupa para lhes ver os pormenores e de certeza que nos encontrarei, minúsculos, mas abraçados. Com sorte, poderei prová-las. Porque as memórias boas têm gosto a horas bem passadas. E com mais sorte ainda, conseguirei até degustá-las, saborear-lhes o picante adocicado com que as deixámos. Mas não as deixarei quebrarem-me, isso não, porque na altura em que estiver pronta para abrir a caixinha, serei mais forte do que hoje e já terei aprendido a não sofrer de nostalgias ou amores perdidos. Nesse dia, que se aproxima, mas que ainda virá, já terei esquecido as má...

O espelho

Passei de não me querer olhar ao espelho para olhar e não me reconhecer. Se dantes era a imagem que me afastava, porque não me sentia bem naquele corpo, hoje são os sentimentos que não sinto como meus que ali se reflectem. Tento que me abandonem a todo o custo, mas perseguem-me pelos becos e ruelas por onde zigazeio para os despistar. São insistentes e parece que frequentaram um qualquer curso de detetive para me voltarem a encontrar. Já lhes disse que essa, que sente isso, não sou eu, mas não me acreditam e assombram-me sonhos e atravessam-se à frente daqueles que considero meus. É como se, em vez do corpo, fosse agora a alma que se me disforma. Os contornos são-me alheios, são de uma outra, cheia de desconfianças, de olhar por cima de ambos ombros, a temer o golpe fatal sobre a mínima felicidade ou satisfação que ousem aparecer. Pudesse eu arrancar estes sentimentos do peito, ou apagá-los do espelho, e talvez me voltasse a identificar na imagem que me olha, agora, com tristeza. Quem ...

No limbo

A vida passa-nos depressa ou devagar conforme o momento que estamos a viver é bom ou mau. Queremos prolongar os momentos bons, mas nem sempre o conseguimos. Eles são teimosamente curtos. Ainda mais quando temos consciência que irão ter um fim próximo... Tendemos ao sofrimento por antecipação, que pode ser ainda pior do que o sofrimento real. Porque nas nossas cabeças e corações pode acontecer tudo, o verdadeiro e o imaginário. Seria mais fácil se tivéssemos uma bola de cristal que nos permitisse ver o futuro e nos desse certezas. E, no entanto, o certo pode ser tão monótono e aborrecido que adormecemos no caminho e não saboreamos o presente. Como ficamos então? Ficamos assim, no limbo da vida, constantemente a desejar apressar ou retardar o tempo, a querer viver ou hibernar, consoante o sofrimento aperta ou a felicidade desperta. (Olha, até rimou!) Mas o tempo é imutável e não se compadece com as nossas necessidades. Alguns dirão felizmente, outros infelizmente, à vida ser tão somente ...

Incontinências da vida

Nem sempre nos conseguimos conter. A vida atravessa-nos obstáculos no caminho que nos impedem de experimentar a contenção. Não que bloquearmos as emoções ou fecharmo-nos em nós seja sempre positivo. Muitas vezes não é. Mas nalgumas situações ajudar-nos-ia a evitar a dor. A nossa e a dos outros. Vejo-me incontinente de emoções. Há apenas um vidro impecavelmente limpo entre o que sinto e o que transpareço. Sou emoção, muito mais do que raciocínio ou ponderação. E isso magoa, e saca lebres da toca. Levanta questões que só existiriam nos locais mais recônditos de mim se não as mostrasse, e que, quando visíveis no meu reflexo ou aos olhos dos outros, se tornam monstruosas. Tenho, por hábito ou defeito, a tendência de questionar tudo e duvidar até da minha própria sombra, o que associado à minha incontinência emocional, me torna algo parecido com uma bomba kamikaze. Pudesse eu explodir em qualquer lado,  escolheria que fosse para dentro.

Multidões sobre a cabeça

No fundo, nunca estamos completamente sozinhos. Talvez depois de morrermos, mas nunca antes disso. Há sempre um avião que atravessa os céus, cheio de gente dentro. Apercebi-me disto com o filme "Into the wild", que vi vezes sem conta. E desde aí, reparo sempre no céu quando me quero só. No filme, como na vida afinal, o protagonista, apesar de numa imensa solidão e "into the wild", tem sempre um avião a cruzar-lhe os céus.  Hoje, sempre que tento estar só, olho o céu para me certificar se há uma linha desenhada pelo passar de um avião. Se a vejo, e vejo-a quase sempre, penso na multidão que paira sobre a minha cabeça e me impede de estar realmente só. Talvez por sentir que esta solidão me é negada, tenha aprimorado o reflexo de me pôr para dentro. Cá dentro não há multidões. Sou só eu, às vezes múltiplas eu, mas apenas eu. Não sei se toda a gente tem esta necessidade de solidão. Mas parece-me que há pessoas que ou temem estar apenas consigo próprias e enfrentar o sil...

Pé na areia e mar ao pé

Pé na areia e mar ao pé. O som das ondas embalam -me os pensamentos. São tantos os que me assolam que fazem fila na correnteza da minha mente. Alguns ultrapassam outros e os outros tentam impor-se. "Eu estava primeiro, só podes chegar quando eu acabar!", parecem dizer. Mas eles não ouvem, eles só falam. Falam alto e correm uns atrás dos outros. Parecem pessoas na bicha do supermercado, com as compras nas mãos, na urgência de as pousarem na passadeira da caixa. Tenho pensamentos velhos e jovens, como os clientes de um supermercado.  Os velhos acham que já sabem tudo e, porque são velhos e sábios, têm prioridade perante os novos. Os jovens vêm cheios de certezas que descobriram a pólvora e que vão mudar o mundo tanto com a pólvora recém descoberta quanto com a sua frescura de jovens. Ambos estão certos e errados. Talvez por isso se tentem atropelar na minha cabeça. Mas perdem a razão quando não passam de pensamentos em fúria. Tal como os clientes do supermercado a lutar por um ...

Se o 25 de Abril fosse uma mulher

Se o 25 de Abril fosse uma mulher seria a minha avó. Liberdade seria Manuela, porque Manuela foi Liberdade. Durante toda a vida, de cravo ao peito, gritou Liberdade a plenos pulmões. No modo de vida, no corte de costumes bafientos, nas escolhas culturais fora de qualquer caixa, na aceitação do novo e do diferente, quando todos diziam ser um erro. Se não fosse esta Liberdade, os meus tios e a minha mãe não seriam quem são hoje e eu e os primos não seríamos feitos desta imensa variedade. Para se ser Liberdade também é preciso ser-se Coragem e a minha avó uniu as duas nela. Coragem de quebrar a norma por valores que cria altos - e ela quebrou umas tantas. Valores como a igualdade, a justiça, a fraternidade, a solidariedade... Se pudéssemos dar um nome ao 25 de Abril, esse nome seria Manuela.

Falta de material

Trago sempre duas canetas comigo. Como quem tem medo de perder a hipótese de escrevinhar qualquer coisa por falta de material de escrita (como se precisassemos delas, com telefones sempre disponíveis para tudo. Mas, enfim, sou antiga).  Hoje, tenho duas a falhar e isso incomoda-me. Uma, porque está no fim, a outra porque está no princípio e ainda tem a esfera perra. Chateia-me que não escrevam quando quero, porque como escrevo ao ritmo dos pensamentos, se falham perco o fio à meada. Se já sou de comer palavras e, especialmente, perder determinantes pelo caminho, com as canetas assim ainda é pior. Além de palavras e determinantes em falta, fico com eles apenas escritos pela metade. Porra, falhou outra vez! A que está no fim já vai para o lixo. A outra tenho de andar sempre a massajar-lhe a esfera, a ver se escreve. Canetas sensíveis dá nisto! Precisam de massagens para trabalharem razoavelmente. Ok, desisto. Vou ali comprar mais umas tantas que isto está a irritar-me. Até logo!

Entre o gel de banho e a água

Escrevo dentro da minha cabeça. Escrevo muito em silêncio, sem estar a escrever efectivamente. Por isso me é tão difícil. Quando estou de caneta na mão, é como se os textos jorrassem para a caneta. Mas ela nem sempre os consegue acompanhar. Eles vêm em catadupa e a mão e a caneta não são suficientemente rápidas. Às vezes, escrevo enquanto estou no duche, sem caneta ou papel que me valham. Saem-me escritos bem articulados, com princípio, meio e fim, enquanto ensaboouo o corpo ou lavo o cabelo. Depois ficam por ali, porque não consegui passá-los para o papel a tempo. E nunca mais os recupero. Ficam perdidos entre o gel de banho e a água que corre sobre o meu corpo. Alguns vão mesmo ralo abaixo. Seguem para o tratamento de águas residuais e nunca mais ninguém os vê. Tal como me acontece com a caneta na mão. Tenho textos perfeitos no meu cérebro, mas ficam uma merda no papel. Aqui, quero acreditar que talvez o problema esteja na minha destreza manual que não é muito apurada. Ou tento acred...

Poesia

E de repente, vês a poesia entrar na tua vida. Não a poesia das rimas, da métrica, ou dos versos. Mas a poesia dos sentidos. Vês poesia em tudo o que te circunda. Está no céu azul ou cinzento, nas nuvens, no sol e na lua. Está na terra batida ou no alcatrão. Está nos animais, nas plantas e até nas pessoas. Vê só, até nas pessoas. No fundo, ela está é em ti. Deixaste-a entrar num momento qualquer que, se calhar, nem consegues precisar e ela alojou-se em ti como se fosses a sua casa e por aí ficou, meia feita inquilina, meia senhoria. Agora, abres os olhos ou apuras os ouvidos, inspiras na procura de novos aromas ou tocas o vazio e ela está lá. Vem de dentro para fora, por isso, pode instalar-se em tudo o que te envolve. Às vezes, instala-se também naquilo que não queres. Mas aí, já não és tu que mandas, é ela, que agora é dona e senhora de ti.

Iliteracia fotográfica

Reparo, e reparo bastante porque é um assunto que me interessa, que as pessoas no geral não sabem ler fotografia. Não sou uma especialista no tema, mas gosto de fotografia. Tem um encanto muito parecido com o das letras. Dizem-se coisas para lá do que está escrito. Dependendo da arte do fotógrafo uma fotografia não é só uma chapa, uma imagem. É algo mais. Tal como na literatura, um texto pode não ter apenas uma leitura, pode ter várias, milhares de leituras. Depende do autor, mas também depende de quem lê. Tal como na fotografia depende do fotógrafo, mas também de quem vê. E as pessoas têm pouca acuidade visual no que diz respeito à fotografia. Não vêem nada.  Se estamos mais treinados a ler nas entrelinhas dos textos, porque a escola nos ensinou (sim, a escola ensinou-nos algumas coisas de muito valor), quando tentamos ler uma fotografia, não vemos nada para além do que nos  é estampado à frente dos olhos. E isso entristece-me. Porque acho que quem não vê mais do que a sua pr...

Para congelamento

Deus, Alá, Jah, Buda, Natureza, Shiva, Universo, Terra ou qualquer outro nome que lhes dêem só têm poder dentro da nossa cabeça. Talvez o maior deus de todos eles sejamos nós próprios e a nossa incansável capacidade de imaginar e acreditar. Se cremos muito, agimos de acordo e essa acção, mais cedo ou mais tarde, poderá ajudar a realizar aquilo que tanto desejamos. Ou não. Às vezes, a acção faz com que o que não queremos se realize. Ou até as circunstâncias da vida, aquilo que nos é completamente alheio, não permite. E aí achamos que não rezámos o suficiente ou não acreditámos o suficiente. No fundo, desculpamos sempre o nosso deus da incompetência de não cumprir o desígnio. Isto se temos uma religião. Quando não há religião que nos valha, temos depressões, porque sabemos  que a, quase, totalidade da responsabilidade do que não correu como queríamos é nossa.  Claro, que podemos também agarrar-nos ao chamado "destino" (outro deus) e justificar o insucesso com a acção dele. ...

De braços bem abertos

Podem passar-se séculos que um filho permanecerá um bebé aos olhos dos pais. Caber-lhes-á no colo mesmo quando já sobrar mais corpo fora do que no regaço. A vontade de aconchegar e embalar não se perde com os anos ou o tamanho. Mas torna-se mais difícil. Porque os quereres ganham voz e os não-quereres também.  Ficamos, assim, de braços bem abertos à espera de os envolvermos em alguém que está de partida, com pressa de chegar a outro lado que não ao nosso abraço.  E o nosso abraço em intenção fica a libertar oxitocina para o ar, numa ânsia de chegar ao seu destino, paralisado na vontade de aninhar aquele ser que será sempre uma criança a acarinhar. Os braços dos pais são incansáveis. Capazes de ficarem abertos eternidades à espera que os filhos venham, ajeitando a testa para o beijo de boa-noite e fazendo-se pequeninos para que os braços lhes rodeiem o corpo inteiro.

Praia

Os dias longos e quentes sempre foram os da minha preferência. Se há coisa de que gosto é dos finais de tarde numa qualquer esplanada ao pé da água. Se forem na praia ainda são mais perfeitos. Gosto especialmente da praia ao final do dia, quando já temos que nos embrulhar na toalha ou vestir o casaco. Estar na praia vestida é ainda melhor do que despida. Há um certo romantismo nisso. Não me perguntem porquê, mas para mim é romântico estar vestida na praia. Ouvir o bater das ondas e sentir a brisa do mar na pele e no nariz são das sensações que mais me recarregam as baterias. Se vivesse num terra com praia, acho que seria muito mais saudável psicologicamente. Fisicamente, se calhar, também. Gosto do calor, mas na medida certa. (Sim, sou esquisitinha, ou exigente, sei lá!). Hoje, está calor, mas não estou nos meus dias e isso faz-me sentir que não estou a aproveitar o dia como devia. Tenho esta sensação muitas vezes: de não estar a aproveitar o que me acontece como devia. Parece que fico...

Ressentimento

O ressentimento é um peso demasiado pesado para carregarmos. E, no entanto, não somos poucos os que o transportam quase uma vida. Quando somos magoados e colocamos a mágoa para trás das costas julgamos que a resolvemos. Mas não, as mágoas não se resolvem quando estão atrás de nós. Elas resolvem-se na nossa frente. Quando a encaramos cara-a-cara.  Se as encapotamos, elas voltam e voltam em força. Voltam com o tal ressentimento pendurado e tornamo-nos pessoas diferentes, mais frias e calculistas, com sede de vingança. O ressentimento é cruel. Não só para os que nos magoaram, mas essencialmente para nós próprios. Corrói-nos por dentro.  Tritura-nos as entranhas e cospe-as na cara dos outros. Se formos capazes de largar o ressentimento (e muitas vezes não somos, porque ele se nos cola como uma lapa), de o abandonarmos à sua sorte, seremos mais felizes, mais livres e mais leves.

Guarda-fa(c)tos

Há coisas que um dia deixam de nos servir. Qual roupa apertada ou larga, quando emagrecemos ou engordamos. Se somos a pessoa que já não cabe na roupa, trocamo-la por outra. Se somos a roupa (e somos a roupa muito mais vezes do que imaginamos), temos de aceitar - por mais que nos custe - ir para o fundo da gaveta na esperança de, num outro dia, termos uma nova pessoa, ou a mesma emagrecida ou engordada, a quem vestir. Vamos para a gaveta, mas não temos de ir tristes, pois o fundo da gaveta nem sempre é um local mais desconfortável do que o topo, onde pode haver mais frio e vento.

Silêncio

Preciso de silêncio. Silêncio total.  Já não me posso ouvir pensar. A voz dentro de mim não se cala. Está sempre a dizer-me coisas que não quero ouvir. Cala-te de uma vez! Pára com essa merda! Não me digas mais coisas! Não quero saber disso para nada! Blá blá blá e mais blá blá blá... E depois? Já estás rouca de tanto falar e não dizes nada. Para quê tanta palavra, tanto latim? Deixa-me quietinha, sem pensar em nada, só por um bocadinho. Dá-me uns minutinhos de silêncio, de nada. Quero o nada agora! Um espaço vazio e oco, mas sem eco, sem um zumbido, sem sequer o som do vento. Quero o silêncio! Estás sempre com retóricas e teorias da treta. Elas servem para quê? A quem?  Para nada. A ninguém. A mim não me servem, só me cansam a cabeça. Vai ali ver se estou lá fora. Segue o carreiro e vai. Não percas o rumo. É sempre em frente. Não olhes para trás. Não ouses olhar para trás! Sempre em frente e, quando chegares ao abismo, dá o salto. Atira-te. Diz que há um pote de ouro lá em ba...

De corpo e alma

Entrelaçam-se dois corpos na volúpia do amor, enlaçando acima de tudo duas almas. Se o sexo é o poder supremo do corpo, o amor impera no poder da alma. O amor comanda para lá do puro prazer. O amor enaltece o prazer dos corpos indo mais além do simples orgasmo. O amor utiliza os corpos para o servir. Alimenta-se das sensações de êxtase e luxúria para crescer. Bebe do nirvana e engole a essência dos seres. Une-os dentro de si e cria uma composição poética e melódica apartir das almas. Já o sexo, esse, suga-nos para dentro do amor. Talvez a verdadeira função do sexo seja essa, sugar-nos para dentro do amor, quando há amor. Se não há, será apenas dois corpos a contorcerem-se de prazer. Quando há prazer. E o prazer não é tão maior quando dentro do amor? Fora fica sozinho e desamparado na contorção dos corpos. Está desalmado. E para que serve um prazer desalmado? Talvez para o momento, não para a eternidade.

Inofensiva palavra de amor

Às vezes a palavra certa vem de quem menos se espera. Às vezes vem de um sítio que nem sequer sabíamos que existia. Vivemos tanto no nosso mundinho que há mundos que nos são completamente desconhecidos. É uma surpresa boa percebermos que para além de nós há tanto mais para descobrir; que apesar de nós e de nos empenharmos a construir muros em nosso redor, eles não são assim tão poderosos. Percebemos que, por vezes, são tão frágeis que uma inofensiva palavra de amor é capaz de os derrubar. E percebemos também "que uma inofensiva palavra de amor" nunca é inofensiva se é de amor.

Em ruínas

E, de repente, tudo desabou. O que parecia uma construção maciça passou a ruínas do que fora. Os alicerces cederam, estremeceram, e as paredes começaram a dar de si. Houve vidros que se partiram. Ouviram-se os estilhaços ao longe. Lá no outro lado do mundo. O próprio mundo ficou pequenino. Precisámos de pôr óculos de avozinha para o vermos, de tão pequenino que se tornou. É estranho como as construções maciças, por vezes, não o são. É estranho como o entendimento do que é uma construção maciça depende tanto de nós. Somos sempre nós que a tornamos maciça ou não. Ela nunca o é por si só. Que pena. É verdade que a tormenta nos apanhou desprevenidos. Apanha-nos sempre assim, desacautelados, a sacana. Às vezes pressentimo-la, mas esse pressentimento não nos protege do espanto, do medo, do estremecimento. Esse pressentimento, como todos eles enfim, não nos protege de nada. Somos sempre frágeis incapazes perante a tempestade. A casa ainda não se desfez, é certo, mas está quase, quase a desmor...

Um dia

Se um dia não nos virmos mais, quero que saibas que o amor veio do cheiro. O amor nasceu no momento em que pousei o nariz em ti. Sabes que sempre fui de cheirar. Os livros, os cadernos da escola, os lápis de cor, os cavalos, os gatos, as pessoas. Não é por acaso que minha primeira colecção foi feita de borrachas de cheiro. Cheirava as bonecas com que brincava em criança, os sapatos novos ainda de cabedal, a roupa que vestia, os lençóis lavados, a fruta, as flores e até os bichinhos de conta que alguém dissera que não cheiravam bem. (Não espalhes por aí, mas é mentira, os bichinhos de conta não cheiram mal, na verdade, eles não cheiram a nada). Ninguém diria, mas há qualquer coisa do meu pai no teu cheiro e, no entanto, o teu cheiro é tão único, tão só teu que o saberia reconhecer a milhas. Se um dia não nos virmos mais, quero que saibas que nunca conseguirei cheirar outra pessoa como te cheirei a ti. Quero que saibas que não quererei cheirar outra pessoa como te cheirei a ti; como te s...