Parto de luz

Há um consenso na paixão pelo pôr-do-sol. Vemos pessoas a fazer excursões às praias para o apreciar e viver o momento intensamente. Compreendo isso, também me deleito a ver o sol cair sobre as águas do mar. Há uma magia no acontecimento. Vemos o fecho do dia, e vamos ficando iluminados pela luz rosa, depois azul e, por fim, o lusco-fusco abraça-nos generosamente (adoro esta palavra "lusco-fusco"!).

Sou adepta do pôr-do-sol, mas prefiro vê-lo nascer. Talvez porque na minha terra ele nasce sobre o rio, talvez porque sendo eu meia notívaga me encante da mesma forma que o pôr-do-sol encanta as pessoas que o vêem nos seus finais de dia. Talvez porque me traz uma nova esperança, uma ideia de recomeço, de renovação. 

Talvez ainda porque era habitual vê-lo quando trabalhava no que realmente gosto de fazer. 

Naquele tempo, terminava as minhas escritas e o sol nascia. Assim, como que a pôr um ponto final nos artigos que levava horas a redigir.

Passava a noite a escrever; a elaborar textos, a recordá-los e adorná-los para os tornar mais atraentes a quem os fosse ler; a contar histórias e a explicar coisas que me interessavam a um outro ser indefinido, com a mente em ebulição criativa, quase orgásmica.

Adorava todo o processo criativo. Desde sentir as ideias a saltar, tal pop-ups publicitários em sites de jornais, até ao desenrolar dos novelos que formavam quando as juntava na minha imaginação. E o trabalho cirúrgico de as dissecar e compor no papel, eram a cereja no topo do meu bolo.

E depois de horas nisto, o sol abria o novo dia sobre o rio, quase como um parto de luz esplendorosa, potente, magnífica.

As mil e uma cores desenhavam-se nas janelas e encadeavam-me os olhos, trazendo-me um precioso sono matinal, e, com ele, o poder do descanso depois da missão cumprida. 

Havia o relaxamento do corpo e do espírito, mas também aquela sensação de renovação de mim própria e de realização do meu propósito. Havia uma espécie de renascimento suave, um parto de luz dentro de mim.



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