Sabor a canja com hortelã e a papos de anjo

Foi hoje, quando um estranho se sentou ao meu lado no comboio, que percebi que a roupa lavada de casa da minha avó paterna tinha cheiro. Mal ele se sentou, vieram-me à memória os dias em que lá dormi. 

Era pequena, muito pequena, mas o cheiro da roupa de cama ficou-me gravado. Apercebi-me hoje, uns quarenta e tal anos depois, através do cheiro que saía da roupa de um desconhecido pela manhã, que há coisas que ficam em nós assim, de surdina.

Esta minha avó era pouco calorosa no contacto físico. Não dava longos abraços, nem nos enchia a cara de beijos repenicados como algumas avós fazem, mas cozinhava comidas especiais para cada um de nós. Punha na comida o afecto que não dava de outras formas. Ela não era toda doçura, pois dizia o que pensava de forma frontal e, por vezes, amarga, como se nos lançasse uma flecha à consciência. Vindo dela, isso chegava-nos também como um acto de amor. Há pessoas assim, que são duras por fora e macias por dentro. Como ao contrário também as há...

Sei que a minha avó, nem sempre era sedosa por dentro... Para algumas pessoas, era áspera, acutilante até. Não para mim. Ou quero acreditar, que não para mim. Se alguma vez o foi, nunca o senti. E não é isso que conta, afinal?

Se há coisas que a memória regista para sempre são os cheiros. Vão-nos directos às emoções. Como se houvesse uma linha que os une ao nosso centro sensitivo, mexem-nos com o medo, o desprezo, a ansiedade, mas também com o prazer, o aconchego, a calma, a paz, o amor. Os cheiros, às vezes, são lugares inóspitos; outras são casa.

Hoje, a pessoa que se sentou ao meu lado no comboio levou-me a casa da minha avó e trouxe-me aos lábios o sabor a canja com hortelã e a papos de anjo. Trouxe-me a voz dela aos ouvidos, quando dizia "estás mais gorda", em tom meio ácido. Vieram-me também à lembrança as tardes de domingo a jogar krapot na mesa da sala, a missa e a fórmula um a darem na televisão, quando eu queria era ver os desenhos animados. Por instantes, vi nitidamente a minha avó às voltinhas na cozinha, enquanto preparava o almoço com a destreza de quem nunca fez outra coisa na vida. E ela fez.

O desconhecido, de quem nem sequer vi a cara, trouxe-me o calor do amor peculiar desta avó. Foi uma brisa de felicidade infantil, numa manhã asfixiante no quotidiano da gente crescida.


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