Ao meu redor
Estou no comboio a fazer exactamente o mesmo que todas as outras pessoas. Estou agarrada a um telefone. A diferença é que eu estou a escrever este texto... Tenho uma função "activa" e minimamente criativa. Digo eu...
A maioria dos outros não.
Sinto-me especial, mas tenho consciência de que não sou. Sou mais uma pessoa fechada no meu mundinho. Aconchegada no meu silêncio confortável.
Acho-me diferente porque crio cenas, enquanto os outros me parecem apenas meros espectadores de criações de outrem nos seus telefones. Acho-me...
Talvez como toda a gente, acho-me um ser único, especial. E não nos achamos todos? Será que somos? Ou não passamos de mais um animal nesta grande e insignificante manada?
Crio... Penso eu... Será que crio mesmo alguma coisa? Terei mesmo essa estranha capacidade de criar algo de novo? De inventar coisas interessantes?
Talvez não. Mas a crença dá-me algum bem-estar do qual me tento embriegar. É bom pensar que posso ser alguma coisa de diferente quando olho em volta e vejo tudo igual. As pessoas estão tão iguais umas às outras que quase não as distingo.
Talvez devesse olhar-me mais vezes ao espelho. Se o fizesse, provavelmente ver-me-ia igual ao que vislumbro em meu redor.