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A mostrar mensagens de maio, 2024

O amor é um lugar notável

Dos vários amores que nos passam pelo peito, há poucos que se demoram. Amor que resiste à corrosão do tempo é amor valente, que abarca virtudes e defeitos. Amar virtudes é tarefa fácil e imediata. Por outro lado, amar imperfeições é raro, árduo até. Pertence apenas a amores imensos como são os próprios, os paternais ou os amorosos raros. Se o amor paternal é o mais simples de chegar a qualquer um de nós, porque o ser pequenino e indefeso que gerámos nos faz produzir oxitocina a jorros sempre que o, sequer, imaginamos, já o próprio e o amoroso não são tão comuns.  O próprio pode requerer uma vida inteira de treino e labuta dolorosa para se conseguir, primeiro, aceitar e, depois apreciar, aquilo que consideramos deficiente em nós.  Não sendo impossível, é uma empreitada quase interminável.  Características físicas que não encaixam nos nossos parâmetros de beleza mais primários; ou psicológicas que não nos favorecem e que desejámos sempre mudar, só são passíveis de serem gos...

Caixinha pequenina

Quando isto chegar ao fim, vou guardar as memórias dentro de uma caixinha bem pequenina. Não que elas sejam poucas ou pequenas, mas para que mais ninguém consiga encontrar essa caixinha para além de mim. Quero as memórias encolhidas para não me fazerem sofrer. Servirão só para me alegrarem os dias tristes. Nesses em que abrirei a caixinha e espreitarei lá para dentro, sei que inspirarei bem fundo para lhes sentir o cheiro, levarei a lupa para lhes ver os pormenores e de certeza que nos encontrarei, minúsculos, mas abraçados. Com sorte, poderei prová-las. Porque as memórias boas têm gosto a horas bem passadas. E com mais sorte ainda, conseguirei até degustá-las, saborear-lhes o picante adocicado com que as deixámos. Mas não as deixarei quebrarem-me, isso não, porque na altura em que estiver pronta para abrir a caixinha, serei mais forte do que hoje e já terei aprendido a não sofrer de nostalgias ou amores perdidos. Nesse dia, que se aproxima, mas que ainda virá, já terei esquecido as má...

O espelho

Passei de não me querer olhar ao espelho para olhar e não me reconhecer. Se dantes era a imagem que me afastava, porque não me sentia bem naquele corpo, hoje são os sentimentos que não sinto como meus que ali se reflectem. Tento que me abandonem a todo o custo, mas perseguem-me pelos becos e ruelas por onde zigazeio para os despistar. São insistentes e parece que frequentaram um qualquer curso de detetive para me voltarem a encontrar. Já lhes disse que essa, que sente isso, não sou eu, mas não me acreditam e assombram-me sonhos e atravessam-se à frente daqueles que considero meus. É como se, em vez do corpo, fosse agora a alma que se me disforma. Os contornos são-me alheios, são de uma outra, cheia de desconfianças, de olhar por cima de ambos ombros, a temer o golpe fatal sobre a mínima felicidade ou satisfação que ousem aparecer. Pudesse eu arrancar estes sentimentos do peito, ou apagá-los do espelho, e talvez me voltasse a identificar na imagem que me olha, agora, com tristeza. Quem ...

No limbo

A vida passa-nos depressa ou devagar conforme o momento que estamos a viver é bom ou mau. Queremos prolongar os momentos bons, mas nem sempre o conseguimos. Eles são teimosamente curtos. Ainda mais quando temos consciência que irão ter um fim próximo... Tendemos ao sofrimento por antecipação, que pode ser ainda pior do que o sofrimento real. Porque nas nossas cabeças e corações pode acontecer tudo, o verdadeiro e o imaginário. Seria mais fácil se tivéssemos uma bola de cristal que nos permitisse ver o futuro e nos desse certezas. E, no entanto, o certo pode ser tão monótono e aborrecido que adormecemos no caminho e não saboreamos o presente. Como ficamos então? Ficamos assim, no limbo da vida, constantemente a desejar apressar ou retardar o tempo, a querer viver ou hibernar, consoante o sofrimento aperta ou a felicidade desperta. (Olha, até rimou!) Mas o tempo é imutável e não se compadece com as nossas necessidades. Alguns dirão felizmente, outros infelizmente, à vida ser tão somente ...

Incontinências da vida

Nem sempre nos conseguimos conter. A vida atravessa-nos obstáculos no caminho que nos impedem de experimentar a contenção. Não que bloquearmos as emoções ou fecharmo-nos em nós seja sempre positivo. Muitas vezes não é. Mas nalgumas situações ajudar-nos-ia a evitar a dor. A nossa e a dos outros. Vejo-me incontinente de emoções. Há apenas um vidro impecavelmente limpo entre o que sinto e o que transpareço. Sou emoção, muito mais do que raciocínio ou ponderação. E isso magoa, e saca lebres da toca. Levanta questões que só existiriam nos locais mais recônditos de mim se não as mostrasse, e que, quando visíveis no meu reflexo ou aos olhos dos outros, se tornam monstruosas. Tenho, por hábito ou defeito, a tendência de questionar tudo e duvidar até da minha própria sombra, o que associado à minha incontinência emocional, me torna algo parecido com uma bomba kamikaze. Pudesse eu explodir em qualquer lado,  escolheria que fosse para dentro.

Multidões sobre a cabeça

No fundo, nunca estamos completamente sozinhos. Talvez depois de morrermos, mas nunca antes disso. Há sempre um avião que atravessa os céus, cheio de gente dentro. Apercebi-me disto com o filme "Into the wild", que vi vezes sem conta. E desde aí, reparo sempre no céu quando me quero só. No filme, como na vida afinal, o protagonista, apesar de numa imensa solidão e "into the wild", tem sempre um avião a cruzar-lhe os céus.  Hoje, sempre que tento estar só, olho o céu para me certificar se há uma linha desenhada pelo passar de um avião. Se a vejo, e vejo-a quase sempre, penso na multidão que paira sobre a minha cabeça e me impede de estar realmente só. Talvez por sentir que esta solidão me é negada, tenha aprimorado o reflexo de me pôr para dentro. Cá dentro não há multidões. Sou só eu, às vezes múltiplas eu, mas apenas eu. Não sei se toda a gente tem esta necessidade de solidão. Mas parece-me que há pessoas que ou temem estar apenas consigo próprias e enfrentar o sil...