Caixinha pequenina
Quando isto chegar ao fim, vou guardar as memórias dentro de uma caixinha bem pequenina. Não que elas sejam poucas ou pequenas, mas para que mais ninguém consiga encontrar essa caixinha para além de mim.
Quero as memórias encolhidas para não me fazerem sofrer. Servirão só para me alegrarem os dias tristes. Nesses em que abrirei a caixinha e espreitarei lá para dentro, sei que inspirarei bem fundo para lhes sentir o cheiro, levarei a lupa para lhes ver os pormenores e de certeza que nos encontrarei, minúsculos, mas abraçados.
Com sorte, poderei prová-las. Porque as memórias boas têm gosto a horas bem passadas.
E com mais sorte ainda, conseguirei até degustá-las, saborear-lhes o picante adocicado com que as deixámos.
Mas não as deixarei quebrarem-me, isso não, porque na altura em que estiver pronta para abrir a caixinha, serei mais forte do que hoje e já terei aprendido a não sofrer de nostalgias ou amores perdidos.
Nesse dia, que se aproxima, mas que ainda virá, já terei esquecido as mágoas e não as reviverei mais. A vida já me terá ensinado que, quando se guardam memórias, só vale a pena guardar as boas dentro de caixinhas pequeninas. Todas as outras ter-se-ão tornado pequenas cicatrizes que traremos na alma.