Multidões sobre a cabeça

No fundo, nunca estamos completamente sozinhos. Talvez depois de morrermos, mas nunca antes disso.

Há sempre um avião que atravessa os céus, cheio de gente dentro.

Apercebi-me disto com o filme "Into the wild", que vi vezes sem conta. E desde aí, reparo sempre no céu quando me quero só.

No filme, como na vida afinal, o protagonista, apesar de numa imensa solidão e "into the wild", tem sempre um avião a cruzar-lhe os céus. 

Hoje, sempre que tento estar só, olho o céu para me certificar se há uma linha desenhada pelo passar de um avião. Se a vejo, e vejo-a quase sempre, penso na multidão que paira sobre a minha cabeça e me impede de estar realmente só.

Talvez por sentir que esta solidão me é negada, tenha aprimorado o reflexo de me pôr para dentro. Cá dentro não há multidões. Sou só eu, às vezes múltiplas eu, mas apenas eu.

Não sei se toda a gente tem esta necessidade de solidão. Mas parece-me que há pessoas que ou temem estar apenas consigo próprias e enfrentar o silêncio ou necessitam de um ruído externo em permanência.

Eu não temo a solidão. Antes pelo contrário, gosto de momentos sozinha e do silêncio. Apesar de haver menos silêncio cá dentro do que o desejado porque as múltiplas de mim falam que se desunham e é difícil calá-las. 

O amor, por vezes, consegue calar estas vozes que se atropelam, mas aí não estou sozinha, apenas num silêncio momentâneo. O amor tem aprendido a calá-las congelando instantes dentro de mim. Não sei como, mas ele consegue esses instantes mágicos. Talvez seja o beijo que impede a minha mente de abrir a boca para falar. Talvez seja o aperto no peito que me impede o coração de bombear as palavras. Talvez não seja nada disso e o amor apenas me faça ignorar os aviões que passam no céu e as vozes que me invadem o cérebro.

Talvez o amor tenha poderes sobrenaturais que nos levam a um estado de quase morte, em que estamos tão cá dentro e connosco próprios que parecemos sós e em silêncio.


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