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A esfera

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Há tempos, consegui comprar canetas Bic Cristal pretas. Andei imenso tempo para encontrar um pack de canetas só pretas. Geralmente, vêm de várias cores ou apenas azuis. Gosto de escrever a preto como de me vestir de preto. (Talvez esteja relacionado com um qualquer luto. Luto de mim própria, quiçá. Luto de vidas passadas que já não me fazem sentido. Ou então não é nenhum luto, mas um simples gosto. Sei lá...) Quanto às canetas, tenho quatro dentro da mala, não vá alguma falhar num momento crítico de expiação. Todas as canetas são pretas, mas apenas uma é Bic. As outras são das marcas brancas dos supermercados, daquelas que imitam as Bic, mas não têm a esfera igual. Com esta conversa pode parecer, mas não sou pessoa de marcas. Não ligo nenhuma à marca das coisas, mas afeiçoo-me a objectos específicos. Gosto daqueles que me preenchem lacunas, que me satisfazem desejos, que me acrescentam aquilo que nem sabia precisar. Talvez um pouco como faço com as pessoas quando não lhes ligo aos rótu...

Coração ao colo

Vulnerabilidade é pegar no coração e pousá-lo em cima da mesa para o outro se servir. Há quem olhe para ele e vire as costas.  Uns, pura e simplesmente porque não lhes interessa aquele órgão ensanguentado; outros, apenas porque não sabem o que fazer com ele.  Estes talvez não saibam como lhe pegar sem o ferir, talvez sintam que ainda não apuraram as técnicas de dissecar o amor. Mal eles sonham que no amor não há técnicas que o valham... Ele é tão mais puro e verdadeiro quanto amador. Já quem se entrega à vulnerabilidade e pousa o coração na mesa, às vezes, só precisa que o abracem com carinho, mesmo que desajeitadamente e sem grande ciência.

Fuga

Fui andar à beira-rio.  À medida que avançava, ia acelerando o passo. Quando dei por mim estava a correr. Porque corro eu se detesto correr? Só depois percebi que eu não corria... Fugia.

Sabor a canja com hortelã e a papos de anjo

Foi hoje, quando um estranho se sentou ao meu lado no comboio, que percebi que a roupa lavada de casa da minha avó paterna tinha cheiro. Mal ele se sentou, vieram-me à memória os dias em que lá dormi.  Era pequena, muito pequena, mas o cheiro da roupa de cama ficou-me gravado. Apercebi-me hoje, uns quarenta e tal anos depois, através do cheiro que saía da roupa de um desconhecido pela manhã, que há coisas que ficam em nós assim, de surdina. Esta minha avó era pouco calorosa no contacto físico. Não dava longos abraços, nem nos enchia a cara de beijos repenicados como algumas avós fazem, mas cozinhava comidas especiais para cada um de nós. Punha na comida o afecto que não dava de outras formas. Ela não era toda doçura, pois dizia o que pensava de forma frontal e, por vezes, amarga, como se nos lançasse uma flecha à consciência. Vindo dela, isso chegava-nos também como um acto de amor. Há pessoas assim, que são duras por fora e macias por dentro. Como ao contrário também as há... Sei...

Idiotices

A minha cabeça está toda fodida, mas tem algumas capacidades que não trocaria para que ela não fosse fodida. De repente, está na lama, parecendo que só vai encontrar becos sem saída; que não consegue chegar a lado nenhum, apesar do esforço que emprego no pensamento. Pensa, pensa, e apenas encontra muros pela frente. Algum tempo depois, do nada, há uma luz a cintilar ao fundo, como um piscar de olho com aquele brilhozinho maroto.  Começa a trabalhar aos solavancos, qual máquina em aquecimento. Os pensamentos vêm aos tropeções. Vêm crus, meio enublados, como uma sombra das trevas. Começam a tentar arranjar o seu espaço no meu cérebro e alojam-se  devagarinho. É aí que brotam ideias que desejo passar para o papel. Fico a querer muito, numa urgência para começar a escrever. Os dedos mexem-se sozinhos e as mãos ficam trémulas. Os pensamentos encavalitam-se uns nos outros, gerando uma quase revolução mental. Nem sempre consigo escrever o que penso. Geralmente não consigo. Falta-me a...

Ao meu redor

Estou no comboio a fazer exactamente o mesmo que todas as outras pessoas. Estou agarrada a um telefone. A diferença é que eu estou a escrever este texto... Tenho uma função "activa" e minimamente criativa. Digo eu... A maioria dos outros não.  Sinto-me especial, mas tenho consciência de que não sou. Sou mais uma pessoa fechada no meu mundinho. Aconchegada no meu silêncio confortável. Acho-me diferente porque crio cenas, enquanto os outros me parecem apenas meros espectadores de criações de outrem nos seus telefones. Acho-me...  Talvez como toda a gente, acho-me um ser único, especial. E não nos achamos todos? Será que somos? Ou não passamos de mais um animal nesta grande e insignificante manada? Crio... Penso eu... Será que crio mesmo alguma coisa? Terei mesmo essa estranha capacidade de criar algo de novo? De inventar coisas interessantes? Talvez não. Mas a crença dá-me algum bem-estar do qual me tento embriegar. É bom pensar que posso ser alguma coisa de diferente quando ol...

Do perdão

Desta odisseia, em que me tenho mantido para a descoberta daquilo que sou, retiro, a custo e com alguma mágoa, a incapacidade no perdão a mim própria. Vivo atormentada com aquilo que fiz de mal; com as dores que causei aos outros e até com aquelas que apenas me doeram a mim. Sei que sofro da chamada "síndrome do impostor". Acho-me sempre pouco merecedora de coisas boas e sinto que as minhas características possivelmente dignas de elogio são sempre uma trapaça. Acho que as pessoas me tomam por melhor do que sou na realidade.  Baixa autoestima, dirão alguns. Excessiva modéstia, chamar-lhe-ão outros. Talvez uma mistura das duas, aliada a alguma (muita) insegurança, digo eu. Duvido tanto das coisas boas que me acontecem que as saboto para pôr um ponto final à dúvida. Assim se terminaram é porque eu tinha razão e não as merecia de facto. Pelo menos, nisto sinto-me confiante e dona da razão... Da razão de que não as merecia. Ainda não sei como sofro mais, mas sei que sofro sempre. ...

À velocidade das máquinas

Estou numa nova função no meu trabalho. Não é melhor do que a anterior. É pior em propósito. Pelo menos para mim que desprezo trabalhar em funções que tenham como fim ganhar dinheiro.  Podiam dizer: "mas se trabalhas é para ganhar dinheiro, ou não?!". Não, eu trabalho para sobreviver e, para sobreviver, infelizmente, tenho de ganhar dinheiro. Se não fosse preciso ganhar dinheiro, trabalharia só naquilo de que gosto, que, infelizmente mais uma vez, não me sustenta. Dinheiro não é o meu objectivo, nunca foi. Não tenho grandes pretensões monetárias ou materiais, nem sequer gosto muito de números. Quero só viver sem ter de pensar em trocos para conseguir ter uma vida mais ou menos confortável. Não sei se me fiz entender bem, mas não interessa muito também. Passando à frente. Neste "novo trabalho" continuo agarrada a um computador. Coisa que já me chateia um bocado, sinceramente. Especialmente quando é para fazer coisas sem um pingo de criatividade, coisas que preciso ap...

Esculturas

Tenho sentido um enorme prazer em criar as minhas Personas . Inventar uma personalidade, fisionomia e toda uma vida à volta de uma personagem, a partir de qualquer coisa que vejo ou sinto, tem sido o combustível para conseguir sobreviver ao meu trabalho de merda.  O meu trabalho é definitivamente uma merda. Não me diz nada. Introduzo dados em plataformas, dados completamente insignificantes para mim, mas de imensa importância para empresas e pessoas que também não são nada importantes para mim.  Durante oito horas por dia, com intervalos de uma hora para almoço e de dez minutos a meio da manhã e mais dez minutos a meio da tarde, digito insignificâncias como se não houvesse amanhã, ao jeito de uma máquina industrial. De facto, sou isto profissionalmente, mas, acredito, não me resumo a isto. Porque escrevo e imagino coisas na hora que tenho livre para almoçar e nos vinte minutos, divididos em duas parcelas, que me dão para comer, ir à casa-de-banho, fumar, olhar para além de um ...

Para além do mar

Pudesse eu olhar para além do mar e veria nos olhos tudo o que os lábios expressam. Se há conteúdo profundo é o que se consegue ler nas entrelinhas dos actos e das palavras. As palavras são poderosos artifícios da linguagem. Podem ser tanto encantamento quanto verdade. Já os actos são instinto ou representação.  Mas as pausas, os silêncios e a inacção podem estar mais cheias de significado do que o que dizemos ou fazemos. Pudesse eu olhar para além do mar e ouviria tudo o que o silêncio não diz.

Arte

Quanto mais velha vou ficando mais valor vou dando à arte na minha vida. Tenho percebido que das coisas que me dá mais prazer é este contacto com obras de arte. Da literatura às artes visuais, passando pela música, pelo teatro, pela fotografia, cinema, e até pelo desporto (sim, também há arte no desporto) todas me preenchem de alguma forma. Contemplar a criatividade dos artistas e respirar-lhes as criações enche-me as medidas. Fico cheia por dentro. Como se me alimentassem e me preenchessem os espaços que tenho vazios, espaços vagos na alma a precisar de ocupar com ideias, peças e acontecimentos preciosos. Bebo arte pelos olhos, ouvidos, nariz e boca. Bebo arte, às vezes, até com as pontas dos dedos.  Sorvo-a, quase insaciavelmente. Porque quanto mais a consumo, mais sinto necessidade de consumir mais e mais. Talvez esteja a tornar-me numa viciada em criatividade alheia. Ou talvez esteja a fazer aquele balanço da vida (de que já falei aqui anteriormente) em que pesamos as coisas qu...

Jingle Bell

"O Natal é quando um homem quiser", dizem as más línguas. Mas o Natal também pode deixar de ser se um "homem" assim o quiser.  Eu quero. Não gosto do Natal. Aliás, detesto o Natal. Gostava que deixasse de existir. Gostava mesmo de ser eu a deixar de existir durante o Natal. Enfiar a cabeça na areia e fingir que não há Natal; que não vejo as luzes coloridas a iluminar as ruas; não oiço o Jingle Bell a toda hora; não vejo os presépios e árvores de Natal pelas janelas das casas; não vejo os presentes embrulhados em papéis foleiros, ou os pais Natal de pano pendurados nos prédios, nem as centenas de homens de barbas brancas falsas mascarados nos centros comerciais e feiras alusivas à época. Não gosto da cena religiosa, porque não gosto de religiões. Consigo vislumbrar alguma utilidade nelas para acalmar os espíritos e dar conforto às almas, mas acho-as "tóxicas" (empregando a palavra da moda). Acho que se tira muito pouco do bem que fazem às pessoas se pusermo...

Parto de luz

Há um consenso na paixão pelo pôr-do-sol. Vemos pessoas a fazer excursões às praias para o apreciar e viver o momento intensamente. Compreendo isso, também me deleito a ver o sol cair sobre as águas do mar. Há uma magia no acontecimento. Vemos o fecho do dia, e vamos ficando iluminados pela luz rosa, depois azul e, por fim, o lusco-fusco abraça-nos generosamente (adoro esta palavra "lusco-fusco"!). Sou adepta do pôr-do-sol, mas prefiro vê-lo nascer. Talvez porque na minha terra ele nasce sobre o rio, talvez porque sendo eu meia notívaga me encante da mesma forma que o pôr-do-sol encanta as pessoas que o vêem nos seus finais de dia. Talvez porque me traz uma nova esperança, uma ideia de recomeço, de renovação.  Talvez ainda porque era habitual vê-lo quando trabalhava no que realmente gosto de fazer.  Naquele tempo, terminava as minhas escritas e o sol nascia. Assim, como que a pôr um ponto final nos artigos que levava horas a redigir. Passava a noite a escrever; a elaborar tex...

Meio sonho, meio pesadelo

Esta noite sonhei que, de repente, entravas porta adentro, rasgavas-me a roupa, abraçavas-me como se o mundo estivesse todo no meu abraço, beijavas-me como se tivesses apenas um minuto para o fazer e dizias-me que a vida sem mim não fazia qualquer sentido... Sussurrasvas-me ao ouvido eternas juras de amor na linguagem que, num dia de delírios conjuntos, inventámos. Mas, de repente, enquanto ainda estava a meio deste encantamento, passaram a ser horas de levantar, lavar os dentes e ir trabalhar.  Acordei estremunhada, enrolei o meu coração sangrento em compressas esterilizadas e segui para mais um dia. Esta noite, tive um sonho. Meio sonho, meio pesadelo.

Perdida

Ando perdida e tenho tido alguma dificuldade em reencontrar-me. É como se estivesse constantemente à minha procura por becos e ruelas e me fosse escondendo a cada curva.  Há uma esquina e vejo, de relance, o meu braço que a cruza. Vejo o braço, mas não vejo mais nada. O resto do corpo já desapareceu. Por vezes, consigo vislumbrar o ombro, mas nada mais. Já fui, já passei para o outro lado da rua. Talvez isto esteja de alguma forma relacionado com a famosa meia-idade. Idade esta em que fazemos balanços do que fomos, do que ainda queremos ser e do que realmente somos, afinal. Na verdade, não sei muito bem... Não sei bem nem mal, não sei nada. As dúvidas estão centradas no que sou agora e no ainda quero vir a ser. Se é que sou e ainda virei a ser alguma coisa diferente do que fui ou do que sou, se sou... Se sou... Vivo nesta indefinição. Umas vezes parece-me que cheguei a uma conclusão, outras parece-me que está tudo ainda mais indefinido, como que enevoado, cheio de nuvens de incerte...