Do perdão
Desta odisseia, em que me tenho mantido para a descoberta daquilo que sou, retiro, a custo e com alguma mágoa, a incapacidade no perdão a mim própria.
Vivo atormentada com aquilo que fiz de mal; com as dores que causei aos outros e até com aquelas que apenas me doeram a mim.
Sei que sofro da chamada "síndrome do impostor". Acho-me sempre pouco merecedora de coisas boas e sinto que as minhas características possivelmente dignas de elogio são sempre uma trapaça. Acho que as pessoas me tomam por melhor do que sou na realidade.
Baixa autoestima, dirão alguns. Excessiva modéstia, chamar-lhe-ão outros. Talvez uma mistura das duas, aliada a alguma (muita) insegurança, digo eu.
Duvido tanto das coisas boas que me acontecem que as saboto para pôr um ponto final à dúvida. Assim se terminaram é porque eu tinha razão e não as merecia de facto. Pelo menos, nisto sinto-me confiante e dona da razão... Da razão de que não as merecia.
Ainda não sei como sofro mais, mas sei que sofro sempre. Sofro com a incerteza de as coisas serem boas, de eu ser merecedora delas e com o fim que lhes ponho quando as saboto. Poder-se-ia dizer que sofrer é o meu passatempo preferido... O pior é que não é, porque não nasci masoquista, ou poderia ao menos retirar daí alguma satisfação.
Talvez tudo isto seja apenas provocado por traços de personalidade que ainda não consegui apagar, atenuar, ou resolver. Ou talvez sejam mesmo defeitos de fabrico daqueles que não têm arranjo possível. Vá-se lá saber... "Traumas", dirão as gentes da psicologia...
Mas como se isto não bastasse, ainda há mais. Depois de toda a tormenta que é viver na incerteza, ainda me culpo: pelo que fiz e pelo que não fiz. Há sempre uma culpa da qual não me perdoo. E tanto as minhas acções quanto as inacções são passíveis de culpa.
Sim, de facto, não é fácil viver dentro de mim. Não desejo isso a ninguém. Posso dizê-lo com conhecimento de causa, já que não houve um dia nesta vida em que não tivesse vivido entre estas quatro paredes do meu corpo e, especialmente, do meu cérebro. Apesar de já ter tentado mudar de casa, nunca tive sucesso nessa mudança. Há sempre um eu que me chama, que fala mais alto, que me traz de volta para os confins da minha pobre existência.
Pelo menos, posso dizer que sou experiente em viver dentro de mim e, talvez mesmo, "especialista" nisso. Para quem sofre destas maleitas do ego, ser "especialista" nalguma coisa é um feito louvável, acreditem. Menos mal...
Vale-me ir tentando (porque sou teimosa como o raio) pôr paninhos quentes na alma e conversar com este ego que se sente culpado por existir, afirmando e arranjando desculpas, à laia de mantra, que o mundo não gira à minha volta e que não tenho caparro para carregar todas as culpas que por aí passeiam.
Resta-me, e sustenta-me, enfim, a esperança de um dia conseguir olhar-me ao espelho sentindo alguma paz sem querer reduzi-lo em pedacinhos.