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A mostrar mensagens de abril, 2024

Pé na areia e mar ao pé

Pé na areia e mar ao pé. O som das ondas embalam -me os pensamentos. São tantos os que me assolam que fazem fila na correnteza da minha mente. Alguns ultrapassam outros e os outros tentam impor-se. "Eu estava primeiro, só podes chegar quando eu acabar!", parecem dizer. Mas eles não ouvem, eles só falam. Falam alto e correm uns atrás dos outros. Parecem pessoas na bicha do supermercado, com as compras nas mãos, na urgência de as pousarem na passadeira da caixa. Tenho pensamentos velhos e jovens, como os clientes de um supermercado.  Os velhos acham que já sabem tudo e, porque são velhos e sábios, têm prioridade perante os novos. Os jovens vêm cheios de certezas que descobriram a pólvora e que vão mudar o mundo tanto com a pólvora recém descoberta quanto com a sua frescura de jovens. Ambos estão certos e errados. Talvez por isso se tentem atropelar na minha cabeça. Mas perdem a razão quando não passam de pensamentos em fúria. Tal como os clientes do supermercado a lutar por um ...

Se o 25 de Abril fosse uma mulher

Se o 25 de Abril fosse uma mulher seria a minha avó. Liberdade seria Manuela, porque Manuela foi Liberdade. Durante toda a vida, de cravo ao peito, gritou Liberdade a plenos pulmões. No modo de vida, no corte de costumes bafientos, nas escolhas culturais fora de qualquer caixa, na aceitação do novo e do diferente, quando todos diziam ser um erro. Se não fosse esta Liberdade, os meus tios e a minha mãe não seriam quem são hoje e eu e os primos não seríamos feitos desta imensa variedade. Para se ser Liberdade também é preciso ser-se Coragem e a minha avó uniu as duas nela. Coragem de quebrar a norma por valores que cria altos - e ela quebrou umas tantas. Valores como a igualdade, a justiça, a fraternidade, a solidariedade... Se pudéssemos dar um nome ao 25 de Abril, esse nome seria Manuela.

Falta de material

Trago sempre duas canetas comigo. Como quem tem medo de perder a hipótese de escrevinhar qualquer coisa por falta de material de escrita (como se precisassemos delas, com telefones sempre disponíveis para tudo. Mas, enfim, sou antiga).  Hoje, tenho duas a falhar e isso incomoda-me. Uma, porque está no fim, a outra porque está no princípio e ainda tem a esfera perra. Chateia-me que não escrevam quando quero, porque como escrevo ao ritmo dos pensamentos, se falham perco o fio à meada. Se já sou de comer palavras e, especialmente, perder determinantes pelo caminho, com as canetas assim ainda é pior. Além de palavras e determinantes em falta, fico com eles apenas escritos pela metade. Porra, falhou outra vez! A que está no fim já vai para o lixo. A outra tenho de andar sempre a massajar-lhe a esfera, a ver se escreve. Canetas sensíveis dá nisto! Precisam de massagens para trabalharem razoavelmente. Ok, desisto. Vou ali comprar mais umas tantas que isto está a irritar-me. Até logo!

Entre o gel de banho e a água

Escrevo dentro da minha cabeça. Escrevo muito em silêncio, sem estar a escrever efectivamente. Por isso me é tão difícil. Quando estou de caneta na mão, é como se os textos jorrassem para a caneta. Mas ela nem sempre os consegue acompanhar. Eles vêm em catadupa e a mão e a caneta não são suficientemente rápidas. Às vezes, escrevo enquanto estou no duche, sem caneta ou papel que me valham. Saem-me escritos bem articulados, com princípio, meio e fim, enquanto ensaboouo o corpo ou lavo o cabelo. Depois ficam por ali, porque não consegui passá-los para o papel a tempo. E nunca mais os recupero. Ficam perdidos entre o gel de banho e a água que corre sobre o meu corpo. Alguns vão mesmo ralo abaixo. Seguem para o tratamento de águas residuais e nunca mais ninguém os vê. Tal como me acontece com a caneta na mão. Tenho textos perfeitos no meu cérebro, mas ficam uma merda no papel. Aqui, quero acreditar que talvez o problema esteja na minha destreza manual que não é muito apurada. Ou tento acred...

Poesia

E de repente, vês a poesia entrar na tua vida. Não a poesia das rimas, da métrica, ou dos versos. Mas a poesia dos sentidos. Vês poesia em tudo o que te circunda. Está no céu azul ou cinzento, nas nuvens, no sol e na lua. Está na terra batida ou no alcatrão. Está nos animais, nas plantas e até nas pessoas. Vê só, até nas pessoas. No fundo, ela está é em ti. Deixaste-a entrar num momento qualquer que, se calhar, nem consegues precisar e ela alojou-se em ti como se fosses a sua casa e por aí ficou, meia feita inquilina, meia senhoria. Agora, abres os olhos ou apuras os ouvidos, inspiras na procura de novos aromas ou tocas o vazio e ela está lá. Vem de dentro para fora, por isso, pode instalar-se em tudo o que te envolve. Às vezes, instala-se também naquilo que não queres. Mas aí, já não és tu que mandas, é ela, que agora é dona e senhora de ti.

Iliteracia fotográfica

Reparo, e reparo bastante porque é um assunto que me interessa, que as pessoas no geral não sabem ler fotografia. Não sou uma especialista no tema, mas gosto de fotografia. Tem um encanto muito parecido com o das letras. Dizem-se coisas para lá do que está escrito. Dependendo da arte do fotógrafo uma fotografia não é só uma chapa, uma imagem. É algo mais. Tal como na literatura, um texto pode não ter apenas uma leitura, pode ter várias, milhares de leituras. Depende do autor, mas também depende de quem lê. Tal como na fotografia depende do fotógrafo, mas também de quem vê. E as pessoas têm pouca acuidade visual no que diz respeito à fotografia. Não vêem nada.  Se estamos mais treinados a ler nas entrelinhas dos textos, porque a escola nos ensinou (sim, a escola ensinou-nos algumas coisas de muito valor), quando tentamos ler uma fotografia, não vemos nada para além do que nos  é estampado à frente dos olhos. E isso entristece-me. Porque acho que quem não vê mais do que a sua pr...

Para congelamento

Deus, Alá, Jah, Buda, Natureza, Shiva, Universo, Terra ou qualquer outro nome que lhes dêem só têm poder dentro da nossa cabeça. Talvez o maior deus de todos eles sejamos nós próprios e a nossa incansável capacidade de imaginar e acreditar. Se cremos muito, agimos de acordo e essa acção, mais cedo ou mais tarde, poderá ajudar a realizar aquilo que tanto desejamos. Ou não. Às vezes, a acção faz com que o que não queremos se realize. Ou até as circunstâncias da vida, aquilo que nos é completamente alheio, não permite. E aí achamos que não rezámos o suficiente ou não acreditámos o suficiente. No fundo, desculpamos sempre o nosso deus da incompetência de não cumprir o desígnio. Isto se temos uma religião. Quando não há religião que nos valha, temos depressões, porque sabemos  que a, quase, totalidade da responsabilidade do que não correu como queríamos é nossa.  Claro, que podemos também agarrar-nos ao chamado "destino" (outro deus) e justificar o insucesso com a acção dele. ...

De braços bem abertos

Podem passar-se séculos que um filho permanecerá um bebé aos olhos dos pais. Caber-lhes-á no colo mesmo quando já sobrar mais corpo fora do que no regaço. A vontade de aconchegar e embalar não se perde com os anos ou o tamanho. Mas torna-se mais difícil. Porque os quereres ganham voz e os não-quereres também.  Ficamos, assim, de braços bem abertos à espera de os envolvermos em alguém que está de partida, com pressa de chegar a outro lado que não ao nosso abraço.  E o nosso abraço em intenção fica a libertar oxitocina para o ar, numa ânsia de chegar ao seu destino, paralisado na vontade de aninhar aquele ser que será sempre uma criança a acarinhar. Os braços dos pais são incansáveis. Capazes de ficarem abertos eternidades à espera que os filhos venham, ajeitando a testa para o beijo de boa-noite e fazendo-se pequeninos para que os braços lhes rodeiem o corpo inteiro.

Praia

Os dias longos e quentes sempre foram os da minha preferência. Se há coisa de que gosto é dos finais de tarde numa qualquer esplanada ao pé da água. Se forem na praia ainda são mais perfeitos. Gosto especialmente da praia ao final do dia, quando já temos que nos embrulhar na toalha ou vestir o casaco. Estar na praia vestida é ainda melhor do que despida. Há um certo romantismo nisso. Não me perguntem porquê, mas para mim é romântico estar vestida na praia. Ouvir o bater das ondas e sentir a brisa do mar na pele e no nariz são das sensações que mais me recarregam as baterias. Se vivesse num terra com praia, acho que seria muito mais saudável psicologicamente. Fisicamente, se calhar, também. Gosto do calor, mas na medida certa. (Sim, sou esquisitinha, ou exigente, sei lá!). Hoje, está calor, mas não estou nos meus dias e isso faz-me sentir que não estou a aproveitar o dia como devia. Tenho esta sensação muitas vezes: de não estar a aproveitar o que me acontece como devia. Parece que fico...

Ressentimento

O ressentimento é um peso demasiado pesado para carregarmos. E, no entanto, não somos poucos os que o transportam quase uma vida. Quando somos magoados e colocamos a mágoa para trás das costas julgamos que a resolvemos. Mas não, as mágoas não se resolvem quando estão atrás de nós. Elas resolvem-se na nossa frente. Quando a encaramos cara-a-cara.  Se as encapotamos, elas voltam e voltam em força. Voltam com o tal ressentimento pendurado e tornamo-nos pessoas diferentes, mais frias e calculistas, com sede de vingança. O ressentimento é cruel. Não só para os que nos magoaram, mas essencialmente para nós próprios. Corrói-nos por dentro.  Tritura-nos as entranhas e cospe-as na cara dos outros. Se formos capazes de largar o ressentimento (e muitas vezes não somos, porque ele se nos cola como uma lapa), de o abandonarmos à sua sorte, seremos mais felizes, mais livres e mais leves.

Guarda-fa(c)tos

Há coisas que um dia deixam de nos servir. Qual roupa apertada ou larga, quando emagrecemos ou engordamos. Se somos a pessoa que já não cabe na roupa, trocamo-la por outra. Se somos a roupa (e somos a roupa muito mais vezes do que imaginamos), temos de aceitar - por mais que nos custe - ir para o fundo da gaveta na esperança de, num outro dia, termos uma nova pessoa, ou a mesma emagrecida ou engordada, a quem vestir. Vamos para a gaveta, mas não temos de ir tristes, pois o fundo da gaveta nem sempre é um local mais desconfortável do que o topo, onde pode haver mais frio e vento.

Silêncio

Preciso de silêncio. Silêncio total.  Já não me posso ouvir pensar. A voz dentro de mim não se cala. Está sempre a dizer-me coisas que não quero ouvir. Cala-te de uma vez! Pára com essa merda! Não me digas mais coisas! Não quero saber disso para nada! Blá blá blá e mais blá blá blá... E depois? Já estás rouca de tanto falar e não dizes nada. Para quê tanta palavra, tanto latim? Deixa-me quietinha, sem pensar em nada, só por um bocadinho. Dá-me uns minutinhos de silêncio, de nada. Quero o nada agora! Um espaço vazio e oco, mas sem eco, sem um zumbido, sem sequer o som do vento. Quero o silêncio! Estás sempre com retóricas e teorias da treta. Elas servem para quê? A quem?  Para nada. A ninguém. A mim não me servem, só me cansam a cabeça. Vai ali ver se estou lá fora. Segue o carreiro e vai. Não percas o rumo. É sempre em frente. Não olhes para trás. Não ouses olhar para trás! Sempre em frente e, quando chegares ao abismo, dá o salto. Atira-te. Diz que há um pote de ouro lá em ba...

De corpo e alma

Entrelaçam-se dois corpos na volúpia do amor, enlaçando acima de tudo duas almas. Se o sexo é o poder supremo do corpo, o amor impera no poder da alma. O amor comanda para lá do puro prazer. O amor enaltece o prazer dos corpos indo mais além do simples orgasmo. O amor utiliza os corpos para o servir. Alimenta-se das sensações de êxtase e luxúria para crescer. Bebe do nirvana e engole a essência dos seres. Une-os dentro de si e cria uma composição poética e melódica apartir das almas. Já o sexo, esse, suga-nos para dentro do amor. Talvez a verdadeira função do sexo seja essa, sugar-nos para dentro do amor, quando há amor. Se não há, será apenas dois corpos a contorcerem-se de prazer. Quando há prazer. E o prazer não é tão maior quando dentro do amor? Fora fica sozinho e desamparado na contorção dos corpos. Está desalmado. E para que serve um prazer desalmado? Talvez para o momento, não para a eternidade.

Inofensiva palavra de amor

Às vezes a palavra certa vem de quem menos se espera. Às vezes vem de um sítio que nem sequer sabíamos que existia. Vivemos tanto no nosso mundinho que há mundos que nos são completamente desconhecidos. É uma surpresa boa percebermos que para além de nós há tanto mais para descobrir; que apesar de nós e de nos empenharmos a construir muros em nosso redor, eles não são assim tão poderosos. Percebemos que, por vezes, são tão frágeis que uma inofensiva palavra de amor é capaz de os derrubar. E percebemos também "que uma inofensiva palavra de amor" nunca é inofensiva se é de amor.

Em ruínas

E, de repente, tudo desabou. O que parecia uma construção maciça passou a ruínas do que fora. Os alicerces cederam, estremeceram, e as paredes começaram a dar de si. Houve vidros que se partiram. Ouviram-se os estilhaços ao longe. Lá no outro lado do mundo. O próprio mundo ficou pequenino. Precisámos de pôr óculos de avozinha para o vermos, de tão pequenino que se tornou. É estranho como as construções maciças, por vezes, não o são. É estranho como o entendimento do que é uma construção maciça depende tanto de nós. Somos sempre nós que a tornamos maciça ou não. Ela nunca o é por si só. Que pena. É verdade que a tormenta nos apanhou desprevenidos. Apanha-nos sempre assim, desacautelados, a sacana. Às vezes pressentimo-la, mas esse pressentimento não nos protege do espanto, do medo, do estremecimento. Esse pressentimento, como todos eles enfim, não nos protege de nada. Somos sempre frágeis incapazes perante a tempestade. A casa ainda não se desfez, é certo, mas está quase, quase a desmor...

Um dia

Se um dia não nos virmos mais, quero que saibas que o amor veio do cheiro. O amor nasceu no momento em que pousei o nariz em ti. Sabes que sempre fui de cheirar. Os livros, os cadernos da escola, os lápis de cor, os cavalos, os gatos, as pessoas. Não é por acaso que minha primeira colecção foi feita de borrachas de cheiro. Cheirava as bonecas com que brincava em criança, os sapatos novos ainda de cabedal, a roupa que vestia, os lençóis lavados, a fruta, as flores e até os bichinhos de conta que alguém dissera que não cheiravam bem. (Não espalhes por aí, mas é mentira, os bichinhos de conta não cheiram mal, na verdade, eles não cheiram a nada). Ninguém diria, mas há qualquer coisa do meu pai no teu cheiro e, no entanto, o teu cheiro é tão único, tão só teu que o saberia reconhecer a milhas. Se um dia não nos virmos mais, quero que saibas que nunca conseguirei cheirar outra pessoa como te cheirei a ti. Quero que saibas que não quererei cheirar outra pessoa como te cheirei a ti; como te s...