Pé na areia e mar ao pé
Pé na areia e mar ao pé. O som das ondas embalam -me os pensamentos. São tantos os que me assolam que fazem fila na correnteza da minha mente. Alguns ultrapassam outros e os outros tentam impor-se. "Eu estava primeiro, só podes chegar quando eu acabar!", parecem dizer. Mas eles não ouvem, eles só falam. Falam alto e correm uns atrás dos outros. Parecem pessoas na bicha do supermercado, com as compras nas mãos, na urgência de as pousarem na passadeira da caixa.
Tenho pensamentos velhos e jovens, como os clientes de um supermercado.
Os velhos acham que já sabem tudo e, porque são velhos e sábios, têm prioridade perante os novos.
Os jovens vêm cheios de certezas que descobriram a pólvora e que vão mudar o mundo tanto com a pólvora recém descoberta quanto com a sua frescura de jovens.
Ambos estão certos e errados. Talvez por isso se tentem atropelar na minha cabeça. Mas perdem a razão quando não passam de pensamentos em fúria. Tal como os clientes do supermercado a lutar por um lugar na frente da fila que perdem a razão assim que começam a discutir quem deverá seguir na frente.
E o pé continua na areia e o mar continua ao pé...
A tentação de enterrar os pensamentos na areia invade-me, qual pé. E a vontade de os deixar seguirem com as ondas do mar para bem longe é quase imperativa. Para, enfim, desfrutar do silêncio, da areia e do mar, sem clientes de supermercado sempre a importunarem-me.