Iliteracia fotográfica

Reparo, e reparo bastante porque é um assunto que me interessa, que as pessoas no geral não sabem ler fotografia.

Não sou uma especialista no tema, mas gosto de fotografia. Tem um encanto muito parecido com o das letras. Dizem-se coisas para lá do que está escrito. Dependendo da arte do fotógrafo uma fotografia não é só uma chapa, uma imagem. É algo mais. Tal como na literatura, um texto pode não ter apenas uma leitura, pode ter várias, milhares de leituras. Depende do autor, mas também depende de quem lê. Tal como na fotografia depende do fotógrafo, mas também de quem vê.

E as pessoas têm pouca acuidade visual no que diz respeito à fotografia. Não vêem nada. 

Se estamos mais treinados a ler nas entrelinhas dos textos, porque a escola nos ensinou (sim, a escola ensinou-nos algumas coisas de muito valor), quando tentamos ler uma fotografia, não vemos nada para além do que nos  é estampado à frente dos olhos. E isso entristece-me. Porque acho que quem não vê mais do que a sua própria imagem, ou a dos amigos, ou a dos familiares, não vê o mundo que está para lá daquilo que é fotografado.

Hoje, uma fotografia nas redes sociais de um prato de comida ou uma selfie mal enjorcada tem mais gostos do que uma do concurso World Press Photo.

E isso é triste. Muito triste. Devíamos ir todos ali chorar um bocado pelas pessoas que gostam de fotos de pratos de comida tiradas num qualquer restaurantezinho de bairro, com um camarão encavalitado num bróculo.

No entanto, há uma parte desta tristeza que até percebo. Relativamente às fotografias de amigos e parentes, é normal as pessoas porem lá um gostozito. Além de nos identificarmos mais com imagens que tenham pessoas, porque também somos pessoas, mais ainda quando são pessoas que nos são queridas, pôr um gosto numa selfie mal enjorcada de um amigo ou familiar é uma maneira de lhes dizermos que gostamos deles. Porém, também é uma maneira de os incentivar a tirarem mais selfies mal enjorcadas. Do mal o menos.

Mas o que me entristece mais nisto tudo, é que nem nessas fotos, as pessoas vêem mais do que o amigo ou o parente. Às vezes, há mais do isso, muito mais para descobrir e quando não o vemos estamos a perder tanto.

Porque sou vossa amiga (vá, de alguns de vós; de outros, se calhar vou deixar de ser depois de lerem este texto e ficarem todos ofendidos comigo), quero apenas deixar um conselho: vejam, observem com atenção as fotografias que vos chegam, vejam como se estivessem a ler um livro do vosso interesse, abram bem os olhos, fixem cada ponto, vejam a luz, as cores, o enquadramento, vejam mesmo tudo. Porque, quando o fizerem e virem mais coisas do o que lá está e é fácil de ver, vão ganhar muito com isso. Vão ganhar mundo e ver os horizontes alargarem-se perante vós. Vão ter muito mais por onde andar, a vida vai ter um novo encanto. Garanto-vos!

Depois, podem vir aqui agradecer-me! 


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