Um dia

Se um dia não nos virmos mais, quero que saibas que o amor veio do cheiro. O amor nasceu no momento em que pousei o nariz em ti.

Sabes que sempre fui de cheirar. Os livros, os cadernos da escola, os lápis de cor, os cavalos, os gatos, as pessoas.

Não é por acaso que minha primeira colecção foi feita de borrachas de cheiro.

Cheirava as bonecas com que brincava em criança, os sapatos novos ainda de cabedal, a roupa que vestia, os lençóis lavados, a fruta, as flores e até os bichinhos de conta que alguém dissera que não cheiravam bem. (Não espalhes por aí, mas é mentira, os bichinhos de conta não cheiram mal, na verdade, eles não cheiram a nada).

Ninguém diria, mas há qualquer coisa do meu pai no teu cheiro e, no entanto, o teu cheiro é tão único, tão só teu que o saberia reconhecer a milhas.

Se um dia não nos virmos mais, quero que saibas que nunca conseguirei cheirar outra pessoa como te cheirei a ti. Quero que saibas que não quererei cheirar outra pessoa como te cheirei a ti; como te snifei a ti, qual linha de coca a prometer o paraíso ao drogado.

Se um dia estivermos tão distantes que o meu nariz seja incapaz de te alcançar, quero que saibas que no fundo, bem no fundo, de mim haverá sempre um pouco desse teu perfume que se me colou e no qual me viciei.

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