Entre o gel de banho e a água
Escrevo dentro da minha cabeça. Escrevo muito em silêncio, sem estar a escrever efectivamente. Por isso me é tão difícil. Quando estou de caneta na mão, é como se os textos jorrassem para a caneta. Mas ela nem sempre os consegue acompanhar. Eles vêm em catadupa e a mão e a caneta não são suficientemente rápidas.
Às vezes, escrevo enquanto estou no duche, sem caneta ou papel que me valham. Saem-me escritos bem articulados, com princípio, meio e fim, enquanto ensaboouo o corpo ou lavo o cabelo.
Depois ficam por ali, porque não consegui passá-los para o papel a tempo. E nunca mais os recupero. Ficam perdidos entre o gel de banho e a água que corre sobre o meu corpo. Alguns vão mesmo ralo abaixo. Seguem para o tratamento de águas residuais e nunca mais ninguém os vê.
Tal como me acontece com a caneta na mão. Tenho textos perfeitos no meu cérebro, mas ficam uma merda no papel. Aqui, quero acreditar que talvez o problema esteja na minha destreza manual que não é muito apurada.
Ou tento acreditar nisso para não me sentir incapaz. Passar a culpa da cabeça para a mão é contornar o problema para me sentir melhor, eu sei. É como dizer: "Ok, não sou eu que não sei escrever, é a minha mão que não acompanha a minha mente perfeita e supersónica".
Melhor viver assim na ilusão de uma incapacidade física do que mental ou, talvez, melhor ainda ir escrever textos para o banho.