Para congelamento
Deus, Alá, Jah, Buda, Natureza, Shiva, Universo, Terra ou qualquer outro nome que lhes dêem só têm poder dentro da nossa cabeça.
Talvez o maior deus de todos eles sejamos nós próprios e a nossa incansável capacidade de imaginar e acreditar.
Se cremos muito, agimos de acordo e essa acção, mais cedo ou mais tarde, poderá ajudar a realizar aquilo que tanto desejamos.
Ou não. Às vezes, a acção faz com que o que não queremos se realize. Ou até as circunstâncias da vida, aquilo que nos é completamente alheio, não permite. E aí achamos que não rezámos o suficiente ou não acreditámos o suficiente. No fundo, desculpamos sempre o nosso deus da incompetência de não cumprir o desígnio. Isto se temos uma religião.
Quando não há religião que nos valha, temos depressões, porque sabemos que a, quase, totalidade da responsabilidade do que não correu como queríamos é nossa.
Claro, que podemos também agarrar-nos ao chamado "destino" (outro deus) e justificar o insucesso com a acção dele.
Ou acreditarmos que as coisas que nos são externas e as circunstâncias em que ocorrem também têm a sua força e aí passamos a pertencer àquela minúscula parte da sociedade que se diz sã e lúcida de espírito, às vezes, quase tomada como clarividente. Ou seja, passamos a ser raridades ou espécie em extinção e, por isso, muito valiosos: Seres dignos de museu ou para congelamento.
Assim que eu ficar completamente boa da depressão e valer muito, mas mesmo muito, dinheiro, congelem-me, por favor, porque até lá, vou só ali tomar mais um dos meus comprimidinhos a ver se isto passa.