A esfera


Há tempos, consegui comprar canetas Bic Cristal pretas.

Andei imenso tempo para encontrar um pack de canetas só pretas. Geralmente, vêm de várias cores ou apenas azuis.

Gosto de escrever a preto como de me vestir de preto. (Talvez esteja relacionado com um qualquer luto. Luto de mim própria, quiçá. Luto de vidas passadas que já não me fazem sentido. Ou então não é nenhum luto, mas um simples gosto. Sei lá...)

Quanto às canetas, tenho quatro dentro da mala, não vá alguma falhar num momento crítico de expiação. Todas as canetas são pretas, mas apenas uma é Bic. As outras são das marcas brancas dos supermercados, daquelas que imitam as Bic, mas não têm a esfera igual.

Com esta conversa pode parecer, mas não sou pessoa de marcas. Não ligo nenhuma à marca das coisas, mas afeiçoo-me a objectos específicos. Gosto daqueles que me preenchem lacunas, que me satisfazem desejos, que me acrescentam aquilo que nem sabia precisar.

Talvez um pouco como faço com as pessoas quando não lhes ligo aos rótulos. Se são doutoras ou engenheiras não me interessa; se são bem vistas na sociedade ou marginais; se vestem bem e cheiram a perfume ou se vestem trapos e cheiram a suor; se têm dinheiro para ir ao Japão ou se contam os trocos para chegar ao fim do mês são coisas que me dizem muito pouco sobre elas e às quais não dou valor.

Afeiçoo-me às pessoas por aquilo que trazem dentro, pela sua "esfera", por aquilo que têm lá fundo delas e emerge nas suas próprias doses em algumas situações. Às vezes, é-lhes difícil de emergir, mas se sinto que têm a tal "esfera", chega-me para me afeiçoar. 

É como gosto da esfera que distribui a tinta das Bic Cristal... Gosto da forma com que expelem a tinta. É a certa para a minha letra e, por isso, entramos em sintonia. Deixa sair a quantidade de tinta que preciso para as minhas palavras. Como se as completasse e lhes adicionasse parte do conteúdo. Quando escrevo com elas, não escrevo sozinha, escrevemos em conjunto. 

São canetas simples, baratas e sem mais adornos. Não vêm em caixas bonitas, nem precisam de seguro contra roubo. Vêm dentro de um plástico e vendem-se em packs nos supermercados. Mas não são fáceis de encontrar à venda. Especialmente as pretas...

Por isso, sempre que tiro uma caneta da carteira, apalpo a tampa para escolher a Bic. Só não o faço quando o uso é riscar o pão ou leite na lista de compras. Aí não lhes gasto a tinta, porque seria um desperdício.

Tento fazer o mesmo com as pessoas que estimo: não as desperdiçar com superficialidades. Nem sempre consigo, é certo. Às vezes, gasto-as desnecessariamente, desperdiço-as, e penitencio-me por isso. (Aliás, sou perita a penitenciar-me. É uma das minhas especialidades). 

Encontrei as Bic, mas continuo a procurar a fórmula correcta para lidar com as pessoas, especialmente com as que estimo. 

Talvez tenha de procurar esta fórmula correcta toda a vida; talvez a vida seja isso mesmo: uma eterna procura por um qualquer equilíbrio que nunca chega.

Talvez a minha busca na relação com as pessoas seja parecida às Bic Cristal pretas: conseguir não as desperdiçar na lista das compras e encontrar-lhes a esfera que deite a quantidade de tinta certa para as palavras que queremos escrever em conjunto. 

Talvez seja uma busca condenada ao insucesso e alguém mais sabedor me devesse aconselhar a desistir. 

Mas sou teimosa e vou continuar a procura. Quem sabe, um dia, não encontro esta fórmula escondida por entre produtos de marca branca num qualquer supermercado.


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