Silêncio
Fui ao Teatro Aberto ver o "Veneno" e, depois, ouvi uma entrevista com a Carla Maciel, atriz na peça. Na entrevista, ela diz que houve quem lhes dissesse que não achou o texto assim tão bom, mas que houve momentos que lhes tocou bastante, expressões corporais e emoções passadas pelos actores.
Gostei da peça, mas levou-me tempo a processá-la.
A peça é sobre um ex-casal que se reencontra passados dez anos da separação, que ocorreu após a morte de um filho.
No dia de espectáculo, achei que o cenário e a encenação estavam muito bons, mas fiquei com aquela sensação que o texto podia ser bem mais poderoso.
Esta sensação perseguiu-me durante dias e não consegui deixar de pensar nisso. Achava que faltava ali qualquer coisa, que aquele texto tinha espaços que precisavam de ser preenchidos...
Tentei saborear a peça, como quando provamos um sabor novo e não sabemos bem ao que nos sabe... Tentamos compará-lo com outros sabores conhecidos, mas não encontramos nada que se lhe assemelhe. Sabem como é? Ficamos a tentar perceber como catalogar aquilo nas nossas gavetas da memória, mas não encontramos nada parecido.
Ao fim de alguns dias, percebi que, se calhar, o poder da peça é mesmo esse: pôr-nos a pensar mais no que não foi dito do que no que foi dito. Nos vazios do diálogo, nas pausas, nos silêncios.
Isto pôs-me a pensar na importância do que não dizemos, nos espaços que deixamos abertos entre nós e as pessoas a quem queríamos dizer tantas coisas e a quem acabamos por não dizer nada, no que calamos sem sabermos muito bem o motivo, na forma como gerimos as nossas dores e nos silêncios com que as preenchemos.