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Silêncio mortal

Fez, este ano, vinte anos que tive o meu cancro. Hoje, vim à revisão. Estou em frente ao IPO, porque já não se pode fumar lá dentro, nem no jardim, a fazer tempo para a consulta. Leio um livro num banco de pedra e fumo cigarros aquecidos, porque os outros já não devo.  Está sol e sombra, conforme as nuvens se movem no céu e há pombos a rodearem-me os pés na ânsia de debicarem alguma migalhinha que me caia. Mas não tenho migalhas para eles, porque leio e não como.  Não gosto de pombos, por isso, de vez em quando, mexo um pé para se afastarem. Tenho esta rotina há duas décadas. Todos os anos que aqui venho é como se nunca tivesse saído daqui. Incrível como guardamos espaços dentro de nós para estas coisas... O ritual é quase sempre o mesmo: análises, umas vezes ecografia e radiografia ou outros exames, e consulta. Tenho um penso no braço das análises que tive de pressionar durante cinco minutos, enquanto mudava de edifício. Sempre que venho tirar sangue, chego carregada com um s...

Silêncio

Fui ao Teatro Aberto ver o "Veneno" e, depois, ouvi uma entrevista com a Carla Maciel, atriz na peça. Na entrevista, ela diz que houve quem lhes dissesse que não achou o texto assim tão bom, mas que houve momentos que lhes tocou bastante, expressões corporais e emoções passadas pelos actores. Gostei da peça, mas levou-me tempo a processá-la. A peça é sobre um ex-casal que se reencontra passados dez anos da separação, que ocorreu após a morte de um filho. No dia de espectáculo, achei que o cenário e a encenação estavam muito bons, mas fiquei com aquela sensação que o texto podia ser bem mais poderoso.  Esta sensação perseguiu-me durante dias e não consegui deixar de pensar nisso. Achava que faltava ali qualquer coisa, que aquele texto tinha espaços que precisavam de ser preenchidos... Tentei saborear a peça, como quando provamos um sabor novo e não sabemos bem ao que nos sabe... Tentamos compará-lo com outros sabores conhecidos, mas não encontramos nada que se lhe assemelhe. S...

Bruxa má

Tenho uma veia maléfica que me pulsa em certos momentos. Quando um condutor armado aos cucos acelera e apita, como se fosse dono da estrada que, com a sua pressazinha, desrespeita todos os outros, se tem de estancar a dez metros num sinal vermelho, sinto a veia latejar-me nas têmporas como se fosse explodir. Nestas alturas, sou a bruxa da Branca de Neve, sem sequer ter de envenenar a maçã. Ela já vem com a dose de veneno certa e a Branca de Neve cai redonda à minha frente sem que eu tenha de mover uma palha. Confesso que me deleito com estes pequenos prazeres terrorificos. Encarnará a bruxa má em mim? Ou serei eu uma bruxa má adormecida na maior parte do tempo? Acho bonito ver maldades e desrespeitos ripostarem em escroques. Sinto a vida ficar tão mais florida.

A esfera

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Há tempos, consegui comprar canetas Bic Cristal pretas. Andei imenso tempo para encontrar um pack de canetas só pretas. Geralmente, vêm de várias cores ou apenas azuis. Gosto de escrever a preto como de me vestir de preto. (Talvez esteja relacionado com um qualquer luto. Luto de mim própria, quiçá. Luto de vidas passadas que já não me fazem sentido. Ou então não é nenhum luto, mas um simples gosto. Sei lá...) Quanto às canetas, tenho quatro dentro da mala, não vá alguma falhar num momento crítico de expiação. Todas as canetas são pretas, mas apenas uma é Bic. As outras são das marcas brancas dos supermercados, daquelas que imitam as Bic, mas não têm a esfera igual. Com esta conversa pode parecer, mas não sou pessoa de marcas. Não ligo nenhuma à marca das coisas, mas afeiçoo-me a objectos específicos. Gosto daqueles que me preenchem lacunas, que me satisfazem desejos, que me acrescentam aquilo que nem sabia precisar. Talvez um pouco como faço com as pessoas quando não lhes ligo aos rótu...

Coração ao colo

Vulnerabilidade é pegar no coração e pousá-lo em cima da mesa para o outro se servir. Há quem olhe para ele e vire as costas.  Uns, pura e simplesmente porque não lhes interessa aquele órgão ensanguentado; outros, apenas porque não sabem o que fazer com ele.  Estes talvez não saibam como lhe pegar sem o ferir, talvez sintam que ainda não apuraram as técnicas de dissecar o amor. Mal eles sonham que no amor não há técnicas que o valham... Ele é tão mais puro e verdadeiro quanto amador. Já quem se entrega à vulnerabilidade e pousa o coração na mesa, às vezes, só precisa que o abracem com carinho, mesmo que desajeitadamente e sem grande ciência.

Fuga

Fui andar à beira-rio.  À medida que avançava, ia acelerando o passo. Quando dei por mim estava a correr. Porque corro eu se detesto correr? Só depois percebi que eu não corria... Fugia.