Silêncio mortal
Fez, este ano, vinte anos que tive o meu cancro. Hoje, vim à revisão. Estou em frente ao IPO, porque já não se pode fumar lá dentro, nem no jardim, a fazer tempo para a consulta.
Leio um livro num banco de pedra e fumo cigarros aquecidos, porque os outros já não devo.
Está sol e sombra, conforme as nuvens se movem no céu e há pombos a rodearem-me os pés na ânsia de debicarem alguma migalhinha que me caia. Mas não tenho migalhas para eles, porque leio e não como.
Não gosto de pombos, por isso, de vez em quando, mexo um pé para se afastarem.
Tenho esta rotina há duas décadas. Todos os anos que aqui venho é como se nunca tivesse saído daqui. Incrível como guardamos espaços dentro de nós para estas coisas...
O ritual é quase sempre o mesmo: análises, umas vezes ecografia e radiografia ou outros exames, e consulta.
Tenho um penso no braço das análises que tive de pressionar durante cinco minutos, enquanto mudava de edifício. Sempre que venho tirar sangue, chego carregada com um saco no ombro direito com um livro, um caderno e uma garrafa de água, a mala a tiracolo e, às vezes, um casaco.
Desembaraço-me disso tudo para arregaçar as mangas, enquanto o enfermeiro vai vendo no computador quem sou eu e que quantidade de sangue me terá de tirar. Depois pergunta-me o nome completo, imprime etiquetas para os frasquinhos e saca da agulha em forma de borboleta. Nessa altura, estendo-lhe ambos os braços e mostro-lhe as veias: "Escolha a que achar melhor, mas a que tem melhor aspecto costuma ser a pior", aviso. Digo-lhes sempre isto, não vão eles deixarem-se enganar pela bela e rechonchuda veia do braço direito.
Geralmente, seguem o meu conselho e escolhem a com pior aspecto. Alguns querem testar as suas capacidades e arriscam-se com a que tem melhor cara. E não é que normalmente conseguem encher os fraquinhos todos com ela mesmo a pingar a conta-gotas?! Os enfermeiros daqui têm perícias raras.
O IPO mudou desde que aterrei aqui pela primeira vez. Hoje, tem mais carros e nenhuns lugares para estacionar (o estacionamento é, agora, pago e aberto a qualquer pessoa, desde que ponha as moedinhas na máquina à saida. Dantes, era exclusivo ao pessoal médico e doentes e gratuito); as paredes interiores dos edifícios estão mais modernas; há frases motivacionais escritas aqui e ali e quadros pendurados nas paredes com fotografias e pinturas; o sabonete líquido das casas-de-banho tem um cheiro diferente e sai em espuma; alguns dos funcionários são outros, outros são os mesmos, mas estão mais velhos; já não há auxiliares com carrinhos de supermercado cheios com os processos dos doentes para as consultas (hoje os processos estão enfiados nos computadores que demoram eternidades a mudar de página e que disputam a atenção dos médicos com os doentes); as pessoas nas salas de espera têm telemóveis nas mãos em vez das velhinhas revistas com a programação televisiva e os mexericos sobre famosos. Há médicos jovens e estagiários a cirandar pelos corredores, ainda com aquele brilho nos olhos de quem acredita que ser médico é salvar muitas vidas. Talvez ainda o consigam fazer, mesmo sem quase olharem para os doentes ou lhes tocarem. Pelo menos a mim salvaram-me e deram-me mais estes vinte anos de vida que me permitem estar, agora, a contar as diferenças no IPO.
Nessa altura, os médicos olhavam para nós e observavam-nos as maleitas. Não havia computadores demorados e com imensas coisas inúteis para preencher. Escreviam à mão, mas apenas no final das consultas, quando os doentes já não tinham mais queixas para lhes contar.
Os doentes continuam pedaços de gente. Faltam-lhes bocados dos corpos, trazem máscaras cirúrgicas sobre a boca e nariz, vêm carecas ou com perucas mal postas, têm a pele cinzenta da quimioterapia ou queimada da radioterapia. Vêm com a morte estampada nos rostos. Uma tristeza profunda sai-lhes pelos poros, escurece-lhes o olhar e tomba-lhes as cabeças de desânimo. Muitos são trazidos por familiares tão tristes quanto eles.
Mas há sempre aqueles que, do bocado que lhes resta dos corpos devastados pela doença, transpiram dignidade.
Há a rapariga com o lenço vermelho sobre a careca que traz umas argolas de plástico a espreitarem-lhe por debaixo do lenço e a quem uns ténis com purpurinas decoram os pés. Há o homem que se move erecto a quem falta o queixo. Há a senhora que se mantém à espera do filho na cadeira-de-rodas com a cabeça pousada sobre uma mão lívida e marcada por picadas de agulha. Há a mulher que está encaixada na cadeira da sala de espera horas a fio e que só a filha consegue desencaixar puxando-a pelas mãos trémulas para a levantar.
E há um silêncio solene. Há sempre um silêncio respeitoso que só é interrompido pelo número das senhas dito na voz metálica do monitor. O silêncio daqui é mortal e tem mais vazios do que os outros. E, no entanto, os vazios estão sempre tão cheios de histórias de vida.