Foi hoje, quando um estranho se sentou ao meu lado no comboio, que percebi que a roupa lavada de casa da minha avó paterna tinha cheiro. Mal ele se sentou, vieram-me à memória os dias em que lá dormi. Era pequena, muito pequena, mas o cheiro da roupa de cama ficou-me gravado. Apercebi-me hoje, uns quarenta e tal anos depois, através do cheiro que saía da roupa de um desconhecido pela manhã, que há coisas que ficam em nós assim, de surdina. Esta minha avó era pouco calorosa no contacto físico. Não dava longos abraços, nem nos enchia a cara de beijos repenicados como algumas avós fazem, mas cozinhava comidas especiais para cada um de nós. Punha na comida o afecto que não dava de outras formas. Ela não era toda doçura, pois dizia o que pensava de forma frontal e, por vezes, amarga, como se nos lançasse uma flecha à consciência. Vindo dela, isso chegava-nos também como um acto de amor. Há pessoas assim, que são duras por fora e macias por dentro. Como ao contrário também as há... Sei...
A minha cabeça está toda fodida, mas tem algumas capacidades que não trocaria para que ela não fosse fodida. De repente, está na lama, parecendo que só vai encontrar becos sem saída; que não consegue chegar a lado nenhum, apesar do esforço que emprego no pensamento. Pensa, pensa, e apenas encontra muros pela frente. Algum tempo depois, do nada, há uma luz a cintilar ao fundo, como um piscar de olho com aquele brilhozinho maroto. Começa a trabalhar aos solavancos, qual máquina em aquecimento. Os pensamentos vêm aos tropeções. Vêm crus, meio enublados, como uma sombra das trevas. Começam a tentar arranjar o seu espaço no meu cérebro e alojam-se devagarinho. É aí que brotam ideias que desejo passar para o papel. Fico a querer muito, numa urgência para começar a escrever. Os dedos mexem-se sozinhos e as mãos ficam trémulas. Os pensamentos encavalitam-se uns nos outros, gerando uma quase revolução mental. Nem sempre consigo escrever o que penso. Geralmente não consigo. Falta-me a...
Há tempos, consegui comprar canetas Bic Cristal pretas. Andei imenso tempo para encontrar um pack de canetas só pretas. Geralmente, vêm de várias cores ou apenas azuis. Gosto de escrever a preto como de me vestir de preto. (Talvez esteja relacionado com um qualquer luto. Luto de mim própria, quiçá. Luto de vidas passadas que já não me fazem sentido. Ou então não é nenhum luto, mas um simples gosto. Sei lá...) Quanto às canetas, tenho quatro dentro da mala, não vá alguma falhar num momento crítico de expiação. Todas as canetas são pretas, mas apenas uma é Bic. As outras são das marcas brancas dos supermercados, daquelas que imitam as Bic, mas não têm a esfera igual. Com esta conversa pode parecer, mas não sou pessoa de marcas. Não ligo nenhuma à marca das coisas, mas afeiçoo-me a objectos específicos. Gosto daqueles que me preenchem lacunas, que me satisfazem desejos, que me acrescentam aquilo que nem sabia precisar. Talvez um pouco como faço com as pessoas quando não lhes ligo aos rótu...
Estou no comboio a fazer exactamente o mesmo que todas as outras pessoas. Estou agarrada a um telefone. A diferença é que eu estou a escrever este texto... Tenho uma função "activa" e minimamente criativa. Digo eu... A maioria dos outros não. Sinto-me especial, mas tenho consciência de que não sou. Sou mais uma pessoa fechada no meu mundinho. Aconchegada no meu silêncio confortável. Acho-me diferente porque crio cenas, enquanto os outros me parecem apenas meros espectadores de criações de outrem nos seus telefones. Acho-me... Talvez como toda a gente, acho-me um ser único, especial. E não nos achamos todos? Será que somos? Ou não passamos de mais um animal nesta grande e insignificante manada? Crio... Penso eu... Será que crio mesmo alguma coisa? Terei mesmo essa estranha capacidade de criar algo de novo? De inventar coisas interessantes? Talvez não. Mas a crença dá-me algum bem-estar do qual me tento embriegar. É bom pensar que posso ser alguma coisa de diferente quando ol...
Desta odisseia, em que me tenho mantido para a descoberta daquilo que sou, retiro, a custo e com alguma mágoa, a incapacidade no perdão a mim própria. Vivo atormentada com aquilo que fiz de mal; com as dores que causei aos outros e até com aquelas que apenas me doeram a mim. Sei que sofro da chamada "síndrome do impostor". Acho-me sempre pouco merecedora de coisas boas e sinto que as minhas características possivelmente dignas de elogio são sempre uma trapaça. Acho que as pessoas me tomam por melhor do que sou na realidade. Baixa autoestima, dirão alguns. Excessiva modéstia, chamar-lhe-ão outros. Talvez uma mistura das duas, aliada a alguma (muita) insegurança, digo eu. Duvido tanto das coisas boas que me acontecem que as saboto para pôr um ponto final à dúvida. Assim se terminaram é porque eu tinha razão e não as merecia de facto. Pelo menos, nisto sinto-me confiante e dona da razão... Da razão de que não as merecia. Ainda não sei como sofro mais, mas sei que sofro sempre. ...