Arte

Quanto mais velha vou ficando mais valor vou dando à arte na minha vida.

Tenho percebido que das coisas que me dá mais prazer é este contacto com obras de arte.
Da literatura às artes visuais, passando pela música, pelo teatro, pela fotografia, cinema, e até pelo desporto (sim, também há arte no desporto) todas me preenchem de alguma forma. Contemplar a criatividade dos artistas e respirar-lhes as criações enche-me as medidas.
Fico cheia por dentro. Como se me alimentassem e me preenchessem os espaços que tenho vazios, espaços vagos na alma a precisar de ocupar com ideias, peças e acontecimentos preciosos.
Bebo arte pelos olhos, ouvidos, nariz e boca. Bebo arte, às vezes, até com as pontas dos dedos. 
Sorvo-a, quase insaciavelmente. Porque quanto mais a consumo, mais sinto necessidade de consumir mais e mais. Talvez esteja a tornar-me numa viciada em criatividade alheia. Ou talvez esteja a fazer aquele balanço da vida (de que já falei aqui anteriormente) em que pesamos as coisas que são importantes em contraponto com aquelas que são supérfluas.
E a arte é-me essencial. É quase um ar que preciso respirar para me manter viva.
Como tal, procuro-a. Procuro-a muito, mas são raras as vezes que a encontro realmente.
Encontro mais coisas catalogadas como arte por críticos que, um dia, sonharam ser artistas, mas que, por qualquer ironia do destino, nunca o chegaram a ser. 
Essas "coisas" a que vão chamando arte permanecem coisas e não se tornam obras de arte porque na sua maioria são vazias. Falta-lhes substância, profundidade, mensagem, beleza até. E não é porque um desses críticos faz um texto ilegível a expor tudo o que estudou nas aulas de história de arte que as "coisas" passam a ser arte. 
Arte, assim com maiúscula, não precisa de textos de apoio. A Arte não precisa de tradução. Ela é por si só. Ela deve bastar-se a si própria sem qualquer necessidade de tradução, muito menos de uma tradução em linguagem pretensiosa como a que costuma acompanhar essas coisas que enchem as exposições "armadas ao pingarelho".

Já me julguei ignorante e até talvez de pouca inteligência para entender determinadas "obras de arte" que abundam em algumas exposições, mas cheguei à conclusão que o problema não é meu, que afinal não sou eu.

O problema é mesmo destas curatodorias que servem apenas para masturbar os intelectos de críticos e curadores, outrora artistas frustrados. Que me perdoem os que se sintam visados, mas é isso mesmo. Vocês estão só a masturbar essas vossas cabecitas de artistas que nunca chegaram a ser. E tentam convencer aqueles que têm a coragem de seguir a vida artística (coragem pois, porque em Portugal é preciso muita coragem para se arriscar nisto) que as obras deles só sobrevivem se vocês as explicarem ao povo inculto atraves dos vossos textinhos da caca. 
Com isso, só estão a impedir que esses poucos corajosos vão mais longe na sua criatividade, e vão independentemente de vocês. E vocês sabem bem isso, é essa a vossa intenção. Estão a torná-los dependentes do vosso aval para que vos dêem razão de existir. 
Mas, no fundo, vocês é que só existem por causa de existirem artistas, não o contrário. E ao tornarem-nos dependentes de vocês que ditam o que é ou não arte, estão a diminuir-lhes as capacidades, estão a impedir que cresçam e que criem livremente.

Vocês só me fazem lembrar uma entrevista que uma vez vi à Paula Rego, em que alguém atribuía uma quantidade de perspectivas e tirava conclusões sobre um determinado quadro dela, a quem ela respondeu que não era nada daquilo, que só tinha pintado aquele quadro porque lhe apeteceu.

E é mesmo isso. Os artistas criam porque lhes apetece e o que lhes apetece, e criam porque são criativos, porque têm essa capacidade e a trabalham para que cresça e se desenvolva. Não precisam, nem devem precisar, que ninguém lhes venha interpretar e traduzir os trabalhos, até porque o povo não é assim tão burro ou ignorante. 
Algumas pessoas podem não perceber as correntes artísticas ou as técnicas utilizadas em determinada obra de arte, mas sabem aquilo que lhes transmite e o que lhes transmite pode até ser desprezo, repugnância ou outra coisa qualquer que não é boa de se sentir, mas se sente alguma coisa, a obra chegou ao público sem precisar de intermediário.

Agora se há quem quer e precise de contextualização, aí já se justifica a crítica. Aí é que devem entrar os críticos e restantes pensadores da arte. Servem para quem quer mais explicações, não para condicionar a arte e os artistas às suas dissertações como os temos visto recentemente fazer.

No fundo, as obras de arte são dádivas ao mundo. Servem para nós fazerem sentir, pensar, ver. E o mundo só tem que estar desperto para as receber e absorver.

Depois, mas só depois, poderão vir os analistas e pensadores da arte. Antes disso nunca. 

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