Perdida

Ando perdida e tenho tido alguma dificuldade em reencontrar-me. É como se estivesse constantemente à minha procura por becos e ruelas e me fosse escondendo a cada curva. 
Há uma esquina e vejo, de relance, o meu braço que a cruza. Vejo o braço, mas não vejo mais nada. O resto do corpo já desapareceu. Por vezes, consigo vislumbrar o ombro, mas nada mais. Já fui, já passei para o outro lado da rua.

Talvez isto esteja de alguma forma relacionado com a famosa meia-idade. Idade esta em que fazemos balanços do que fomos, do que ainda queremos ser e do que realmente somos, afinal.

Na verdade, não sei muito bem... Não sei bem nem mal, não sei nada. As dúvidas estão centradas no que sou agora e no ainda quero vir a ser. Se é que sou e ainda virei a ser alguma coisa diferente do que fui ou do que sou, se sou... Se sou...

Vivo nesta indefinição. Umas vezes parece-me que cheguei a uma conclusão, outras parece-me que está tudo ainda mais indefinido, como que enevoado, cheio de nuvens de incerteza.
Faz-me falta a leitura que tinha na adolescência. Faz-me falta enfiar a cabeça num livro e vivê-lo por dentro, viver dentro dele e não sobrar nada de mim cá fora.

Quero encarnar uma personagem dos livros que leio, viver as dores delas e não as minhas. Preciso ardentemente de me descolar de mim, separar-me das minhas tormentas e dos meus prazeres, porque me andam a consumir. Sinto-me gasta, sinto-me desgastada mesmo.

Mas depois há uma sede e uma fome de vida que também me assola e me faz sorver pequenos momentos da vida. Como se os meus dias se esgotassem a cada minuto de vida e se eu não os consumir depressa, arrisco-me a perde-los. E cada vivência destas parece roubar-me uma parte de mim, arrancar-me pedaços de carne e deixar-me desmembrada, incapacitada, esgotada.

Talvez precise, apenas, de encher o peito de ar e reencontrar esta pessoa estranha que parasitou o meu corpo e reconhecê-la como sendo somente eu.

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