Jingle Bell

"O Natal é quando um homem quiser", dizem as más línguas. Mas o Natal também pode deixar de ser se um "homem" assim o quiser. 

Eu quero. Não gosto do Natal. Aliás, detesto o Natal. Gostava que deixasse de existir. Gostava mesmo de ser eu a deixar de existir durante o Natal. Enfiar a cabeça na areia e fingir que não há Natal; que não vejo as luzes coloridas a iluminar as ruas; não oiço o Jingle Bell a toda hora; não vejo os presépios e árvores de Natal pelas janelas das casas; não vejo os presentes embrulhados em papéis foleiros, ou os pais Natal de pano pendurados nos prédios, nem as centenas de homens de barbas brancas falsas mascarados nos centros comerciais e feiras alusivas à época.

Não gosto da cena religiosa, porque não gosto de religiões. Consigo vislumbrar alguma utilidade nelas para acalmar os espíritos e dar conforto às almas, mas acho-as "tóxicas" (empregando a palavra da moda). Acho que se tira muito pouco do bem que fazem às pessoas se pusermos na balança todos os males que já provocaram no mundo. Começando nas guerras e acabando nas discriminações para as quais vão sempre, de uma maneira ou de outra, contribuindo.

Também não gosto do Natal porque, hoje em dia, é mais um cenário comercial do que humanista. Irrita-me a barbárie consumista que se vive nesta época. As corridas às lojas, a obrigatoriedade de se oferecerem presentes a toda a gente e a loucura geral para se conseguir comprar uma porcaria qualquer ao melhor preço. A ideia mercantil da coisa arrepia-me. Sou, de certa forma, alérgica ao pensamento comercial em geral e à ideia de acumular dinheiro em particular. Mas isso é pano para outras mangas que não estas natalícias.

Além de as pessoas ficarem agressivas no trato, como que tomadas por demónios, quando nos cruzamos com elas nas lojas e ruas.

E depois, há o maior motivo que me faz detestar o Natal que é o meu trauma pessoal.

Depois da separação dos meus pais, esta época passou a representar a altura em que eu me tornava o centro da discórdia entre eles e as suas famílias.

Tentavam partir-me em duas para que eu pudesse estar presente, tanto na véspera de Natal quanto no dia, nas várias casas de familiares que devíamos visitar. Cada um puxava-me por um braço para que eu estivesse mais presente num lado ou no outro, guerreavam por insignificâncias e faziam-me sentir remorsos por gostar mais de estar aqui ou ali, o que, em criança, significava que, se calhar, gostava mais de um do que do outro consoante a casa cujo ambiente me era mais agradável nesse ano. Sei hoje que isto não corresponde, de todo, à verdade, mas levou-me muitos anos até conseguir perceber isto e a tranquilizar-me (mais ou menos) com esses sentimentos.

Depois fui mãe e o motivo da discórdia entre eles já não era eu, mas o meu filho (que representava a criança para o qual o Natal acontece) e acrescentou-se a família do pai do meu filho à equação.

Além das mil uma casas pelas quais eu devia passear o meu filho nestes dois dias, acrescentaram-se as casas da família do pai dele. Lógico e natural para toda a gente, menos para mim. Porque o corropio aumentou. O stress aumentou. A responsabilidade de proporcionar um Natal agradável a toda a gente que privasse da nossa companhia aumentou. As quantidade de pessoas a satisfazer aumentou. As necessidades de demonstrações de afecto alargaram-se a novas pessoas e como, para mim, inconscientemente, "Natal é sinónimo de amor partido em bocadinhos e de remorsos" (lembram-se do que disse ali em cima? Dos remorsos? Quando sentia que gostava mais do meu pai ou da minha mãe?), esta época faz-me ficar emocionalmente exausta. O Natal suga-me as forças. Porque me sinto obrigada a provar a toda a gente que as amo em apenas dois dias. E na verdade, eu amo-as o ano todo. Amo-as ainda mais no resto do ano do que no Natal. Porque detesto, com todas as forças que me restam depois de décadas de desgastes natalícios, estes dois dias.


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