Esculturas

Tenho sentido um enorme prazer em criar as minhas Personas.

Inventar uma personalidade, fisionomia e toda uma vida à volta de uma personagem, a partir de qualquer coisa que vejo ou sinto, tem sido o combustível para conseguir sobreviver ao meu trabalho de merda. 

O meu trabalho é definitivamente uma merda. Não me diz nada. Introduzo dados em plataformas, dados completamente insignificantes para mim, mas de imensa importância para empresas e pessoas que também não são nada importantes para mim. 

Durante oito horas por dia, com intervalos de uma hora para almoço e de dez minutos a meio da manhã e mais dez minutos a meio da tarde, digito insignificâncias como se não houvesse amanhã, ao jeito de uma máquina industrial. De facto, sou isto profissionalmente, mas, acredito, não me resumo a isto. Porque escrevo e imagino coisas na hora que tenho livre para almoçar e nos vinte minutos, divididos em duas parcelas, que me dão para comer, ir à casa-de-banho, fumar, olhar para além de um ecrã, respirar e pensar noutras coisas que não dados. Bem como nas viagens de comboio que faço de casa para o emprego e do emprego para casa. Na verdade, até tenho muito tempo para me abstrair dos dados, tenho é pouco para me concentrar em qualquer outra coisa.

Sempre soube que o mundo que transporto dentro de mim é muito maior do que eu, ou até do que está fora de mim. Sei isso desde criança, quando inventava histórias para adormecer. Gostava tanto destas histórias que tinha dias que ansiava a hora de ir para a cama para continuar as histórias que o sono não me tinha deixado terminar na noite anterior. 

Não que eu seja grande coisa, não me considero maior ou melhor do que ninguém, mas sei que tenho vários mundos dentro de mim e que gosto de os exteriorizar através de palavras. Não que as minhas palavras sejam algo muito especial para quem as lê, até porque tenho muito pouco pessoas a lê-las, mas são-no para mim e isso chega-me.

As pessoas com quem trabalho, que vêem significado nos dados que introduzo, com certeza, que farão o mesmo de outras formas ou viverão mais para fora do que para dentro, e isso é capaz de as ajudar a sobreviver. Não sei e, sinceramente, nem me interessa muito. Interessa-me mais o potencial delas como personagens das minhas histórias do que elas em si. 

Parece frio e calculista, eu sei, mas não é, é apenas um escape a uma realidade que não me agrada ou satisfaz. É a saída de emergência deste prédio em chamas que se tornou a minha triste vida profissional.

Mas voltando ao prazer que retiro da minha imaginação e escrita, que é o que realmente interessa, esse é imenso, considero-o até bastante poderoso. Não só porque me permite sobreviver a várias angústias, mas também porque viajo a todo o gás dentro de mim e dos outros, através do simples facto de existirem. 

Aos outros, tento adivinhar-lhes os pensamentos, as dores, as alegrias, as histórias e construo-os a meu bel prazer. No fundo, são a matéria-prima das minhas esculturas escritas, porque os esculpo mesmo. Pousou-os em bruto em cima da bancada de trabalho e começo a desenhar-lhes a cabeça, o tronco e os membros. Depois debruço-me sobre os pormenores e afino-lhes as feições. (Confesso que esta parte é a minha preferida.) Volta e meia estão inteiros. Uns melhores do que outros, é certo, mas inteiros e das dimensões que os quero.

Às vezes, vejo uma pessoa e sugo-lhe a alma: gravo uma particularidade da sua maneira de ser, ou do que eu acho que é a sua maneira de ser, e crio toda uma história à volta dessa particularidade. 

Outras vezes, reparo numa emoção, observo uma acção ou vislumbro uma imagem que me toca de alguma forma e invento tudo o resto. 

Outras vezes ainda, há qualquer coisa que desejo exprimir e esculpo uma pessoa a essa medida para, através dela, exprimir o meu próprio sentimento ou emoção.

Dizem que os escritores não devem revelar os seus segredos no processo criativo, mas como eu não sou nem escritora, nem tenho qualquer segredo de especial relevo, gosto de falar sobre isto, porque me fascina, entusiasma e ajuda a respirar.

Confesso que tenho uma secreta esperança que, talvez um dia, consiga sair desta fábrica estupidificante e deixe de introduzir dados insignificantes em plataformas. Anseio, nesse dia, começar a produzir algo que me dê verdadeiro prazer, algo, assim, como produzir as minhas pessoas imaginárias. 

Mas talvez isso nunca se realize e continue toda a vida com o corpo como parte da engrenagem da máquina industrial e a cabeça a quilómetros dos dados, a viajar, enfiada entre uma folha de papel e uma caneta.

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