À velocidade das máquinas
Estou numa nova função no meu trabalho. Não é melhor do que a anterior. É pior em propósito. Pelo menos para mim que desprezo trabalhar em funções que tenham como fim ganhar dinheiro.
Podiam dizer: "mas se trabalhas é para ganhar dinheiro, ou não?!". Não, eu trabalho para sobreviver e, para sobreviver, infelizmente, tenho de ganhar dinheiro. Se não fosse preciso ganhar dinheiro, trabalharia só naquilo de que gosto, que, infelizmente mais uma vez, não me sustenta.
Dinheiro não é o meu objectivo, nunca foi. Não tenho grandes pretensões monetárias ou materiais, nem sequer gosto muito de números.
Quero só viver sem ter de pensar em trocos para conseguir ter uma vida mais ou menos confortável. Não sei se me fiz entender bem, mas não interessa muito também. Passando à frente.
Neste "novo trabalho" continuo agarrada a um computador. Coisa que já me chateia um bocado, sinceramente. Especialmente quando é para fazer coisas sem um pingo de criatividade, coisas que preciso apenas de executar e automatizar, porque quanto mais automatizadas, melhor fluem.
É triste, eu sei, mas a vida tem destas coisas tristes que servem também para darmos valor às alegres.
Trabalho com novas tecnologias há alguns anos e tenho-me deparado com uma coisa curiosa (que já muita gente deve ter reparado, mas que nunca é demais mencionar): As novas tecnologias já não nos facilitam o trabalho, elas dificultam-no e estão a tornar-nos a vida num inferno.
Estamos tão escravos delas que já não conseguimos prescindir da sua omnipresença. Estão enfiadas em todos os recantos das nossas vidas. Vêem onde vamos, o que fazemos ou comemos; conhecem os nossos amigos, familiares, namorados ou amantes; sabem do amor que um dia perdemos, de quem não gostamos, quem nos morreu ou quando estamos doentes, ou apenas mal-humorados; sabem se pagamos as contas a horas, se vamos com o cão ao veterinário ou se o vizinho se chateou connosco; controlam as músicas que ouvimos, os livros e notícias que lemos, as nossas escolhas políticas, religiosas e/ou desportivas.
Sabem tudo e não nos largam e, pior ainda, nós não as largamos, porque nos viciámos nelas.
E, como se já não bastasse saber tudo o que há a saber sobre nós, estão também a controlar a velocidade a que fazemos tudo isso. Exigem-nos pressa de chegar a lugares e respostas, e rapidez de pensamento e de execução. Exigem-nos que sejamos iguais a elas na concretização e celeridade.
Mas, temos pena, não somos. Não somos, nem podemos ser. Não podemos sequer, e muito menos, querer ser. Ou que alguém, vindo lá não sei de onde, nos exija que sejamos.
Porque o que temos de melhor em sermos seres humanos é não sermos máquinas. É termos as nossas peculiaridades, qualidades e defeitos, é errarmos e acertarmos às vezes, porque não agimos sempre de maneira igual, porque mudamos e nos adaptamos às situações, aos nossos sentimentos e emoções, aos outros.
O que me parece mais grave, mesmo muito grave, é as empresas começarem a querer, exigir até, que trabalhemos como máquinas. Querem que tenhamos a mesma rapidez e produtividade, mas simultaneamente demandam que sejamos humanos e sensíveis quando lhes dá jeito. E isso não existe. Ou nos tornamos máquinas ou continuamos pessoas. O melhor dos dois mundos não existe. Nem ninguém tem o direito de nos pedir, e muito menos exigir, isso.
Somos pessoas e não somos (nem podemos querer ser) máquinas.
Desculpem-me qualquer coisinha, mas temos de nos fazer valer, elevarmo-nos mais alto do que as máquinas e gritarmos - se for preciso - que somos e sempre seremos maiores do que elas, mais fortes, competentes e especialmente humanos.