O amor é um lugar notável
Dos vários amores que nos passam pelo peito, há poucos que se demoram. Amor que resiste à corrosão do tempo é amor valente, que abarca virtudes e defeitos.
Amar virtudes é tarefa fácil e imediata. Por outro lado, amar imperfeições é raro, árduo até. Pertence apenas a amores imensos como são os próprios, os paternais ou os amorosos raros.
Se o amor paternal é o mais simples de chegar a qualquer um de nós, porque o ser pequenino e indefeso que gerámos nos faz produzir oxitocina a jorros sempre que o, sequer, imaginamos, já o próprio e o amoroso não são tão comuns.
O próprio pode requerer uma vida inteira de treino e labuta dolorosa para se conseguir, primeiro, aceitar e, depois apreciar, aquilo que consideramos deficiente em nós.
Não sendo impossível, é uma empreitada quase interminável.
Características físicas que não encaixam nos nossos parâmetros de beleza mais primários; ou psicológicas que não nos favorecem e que desejámos sempre mudar, só são passíveis de serem gostadas quando já levaram anos de hábito e convivência atribulada. É nessa altura que se torna quase impossível vermo-nos sem elas. E é aí que passamos a conseguir amá-las e a amarmo-nos realmente. Demora tempo e requer esforço e várias formas de superação.
Quanto ao amoroso capaz de amar imperfeições, ai esse... Esse é um em mil. Pode levar anos ou, pelo contrário, apenas alguns dias ou horas a ser notado. Mas uma vez que se aloja, a tendência é não mais nos abandonar.
Este amor, que se vê assim profundo, quase próximo do paternal, será de estimar, porque se um dia ousou passar-nos pelas entranhas, poderá nunca mais voltar a ali se hospedar.
Se o amor que outros sentem por nós é inestimável, o que somos capazes de nutrir por eles é ainda mais precioso, pois esse é só nosso e ninguém no-lo poderá roubar.