O espelho
Passei de não me querer olhar ao espelho para olhar e não me reconhecer.
Se dantes era a imagem que me afastava, porque não me sentia bem naquele corpo, hoje são os sentimentos que não sinto como meus que ali se reflectem.
Tento que me abandonem a todo o custo, mas perseguem-me pelos becos e ruelas por onde zigazeio para os despistar. São insistentes e parece que frequentaram um qualquer curso de detetive para me voltarem a encontrar.
Já lhes disse que essa, que sente isso, não sou eu, mas não me acreditam e assombram-me sonhos e atravessam-se à frente daqueles que considero meus.
É como se, em vez do corpo, fosse agora a alma que se me disforma. Os contornos são-me alheios, são de uma outra, cheia de desconfianças, de olhar por cima de ambos ombros, a temer o golpe fatal sobre a mínima felicidade ou satisfação que ousem aparecer.
Pudesse eu arrancar estes sentimentos do peito, ou apagá-los do espelho, e talvez me voltasse a identificar na imagem que me olha, agora, com tristeza. Quem sabe, assim, se declarassem tréguas entre mim e esse maldito vidro que teima em reflectir o que não quero ver...