Progresso
Temos a sensação que evoluímos muito, que as tecnologias nos vieram trazer progresso e grande desenvolvimento.
No entanto, continuamos em rebanhos a caminhar para as fábricas de produção em massa.
Já não produzimos maquinaria ou bugigangas, é certo. Agora produzimos clientes felizes. Construímos utilizadores bem contentinhos, a pensar que nos importamos francamente com os seus problemas.
A nós, querem-nos ovelhas que trabalhem ao ritmo da inteligência artificial, mas com sentimentos humanos. Bem empáticos, porém com o foco nas avaliações que nos irão dar pelas nossas oito horas na fábrica de satisfação do cliente (e que atentemos aos números, sempre os números que irão graduar a nossa competência).
Entramos à hora certa e saímos à hora possível; preferencialmente tarde para mostrar que estamos muito concentrados no objectivo de ver o utilizador sorrir.
Temos o almoço cronometrado e os minutos dos xixis contados, qual fábrica em plena revolução industrial. Cocó? Só em casa, pois demora muito tempo para que se possa encaixar no horário laboral.
Dia após dia, afunilamo-nos nos transportes públicos para chegarmos à indústria a horas certas. Seguimos pelas estações em rebanhos de pessoas solitárias com as cabeças enfiadas no mais recente e barulhento "gadget". Nem ousamos olhar para o lado, não vá alguém dirigir-nos a palavra.
Mas somos pessoas maravilhosas dentro do ecrã... Aí somos todos-poderosos!
Preocupamo-nos com os animais, com os velhos, com o ambiente, com as minorias, com política internacional, com os desfavorecidos e os doentes, e até sentimos a dor da mosca que enxotámos do ecrã do telefone, enquanto publicavamos a nossa mais recente boa acção.
Mas se o choro de uma criança nos incomoda a sesta na espreguiçadeira do hotel "children free", ficamos loucos de raiva; se o velho demora mais de um minuto a avançar na fila, ralhamos e tratamo-los como se fossem imberbes atrasados mentais; se um cão nos atravessa o caminho, chamamos-lhes nomes e afuguentamo-lo a pontapé.
No fundo, continuamos as mesmas ovelhas em rebanhos, contudo sem a empatia das ovelhas reais para com as iguais.
Somos autómatos amordaçados a um mundo virtual que nos dá tanto um mísero salário, na fábrica, ao fim do mês, para continuarmos maquinalmente a fingir que somos humanos, quanto a ilusão de que ainda sentimos coisas.
Fingimos cinco dias consecutivos e nos restantes dois (quando temos a sorte de ter dois) tentamos conectar-nos com a (pouca) verdadeira humanidade que nos resta.
Procuramos algo que nos embriague para nos esquecermos da vida que vamos levando. Para isso, inscrevemo-nos em "experiências", fazemos psicoterapia, abraçamos árvores, participamos em corridas solidárias e retiros espirituais, bebemos litros de álcool ou enchemo-nos de drogas, tornamo-nos escravos de dietas alternativas, fazemos voluntariado ou compramos coisas caras com os tostões que conseguimos amealhar. Tudo isto para nos desalinharmos do rebanho que nos persegue a cada passo que damos. Tudo isto para nos sentirmos vivos e encontrarmos algum sentido que justifique todo este "progresso" e "evolução".
E, no dia seguinte, voltamos à fábrica, reconheçamos o movimento mecanizado que irá produzir paletes de "happy customers".