Poço básico
Fazem-me falta os animais.
Em tempos, tive gatos, cães e cavalos. Com a maior parte dos cães não consegui encontrar a expressão certa. Nunca nos entendemos bem, apesar de gostar muito deles. Apenas um entrou de rompante no meu peito e, acredito, eu no dele.
Também tive peixes e pássaros, mas esses não me trazem qualquer saudade. Que me perdoem.
Dos gatos e dos cavalos falta-me o pêlo, o cheiro, o toque. Até as lambidelas pelas línguas de lixa dos gatos me carecem.
Dou-me bem com eles. Até com os desconhecidos. Somos iguais, funcionamos da mesma forma, entendemo-nos bem. Há qualquer coisa para além da linguagem na nossa comunicação. Como se houvesse muitas palavras não proferidas nos nossos olhares.
Não sei explicar, mas é qualquer coisa como se lêssemos os pensamentos uns dos outros; como se, ao nos cheirarmos, olharmos, sentirmos, percebessemos tudo uns dos outros. Falamos telepaticamente, talvez, se é que isso é possível. Não acredito nestas coisas espirituais, mas, de certa forma, sinto-as com alguns animais.
Tenho também algo semelhante com as crianças...
Talvez nos toquemos pela simplicidade. Talvez eu seja tão simples quanto eles, básica até nos sentimentos e sensações e por isso não precisemos de mais complicações do que aquilo que vamos sentindo para comunicarmos.
Não são falsas modéstias quando me creio básica. Sinto-me mesmo assim: um poço de sensações e sentimentos. Talvez eu não seja mesmo mais nada para além disso...