Felicidade tóxica
Estamos na Era das cenas tóxicas e da gratidão. Parece quase uma contradição, quando tudo é tóxico, termos de agradecer.
Talvez seja por tudo ter, supostamente, um elevado potencial tóxico, que devemos agradecer quando somos abençoados pela ausência dessa maldita toxicidade.
O encadeamento deste raciocínio até pode ter alguma lógica, mas se nos guiarmos por ele, tendemos a tornar-nos escravos - tanto da fuga à toxicidade alheia (porque geralmente é alheia e nós nunca somos os primeiros tóxicos da coisa), como da gratidão por termos de estar sempre gratos quando a nossa vida é isenta de algo "tóxico".
Se não temos pessoas tóxicas, relações tóxicas, sentimentos tóxicos e/ou experiências tóxicas para combater, somos gente com umas vidinhas ocas e desinteressantes.
Se somos os desinteressantes abençoados das vidas vazias, haverá sempre uma qualquer coisa potencialmente nociva da qual nos devemos esquivar para não sermos contagiados. Porque o importante é batalharmos para sermos felizes, estarmos sempre alegres e sorridentes, gostarmos de "nós próprios" acima de tudo, vivermos a vida ao máximo, superarmo-nos a cada "experiência" e, no fim, sermos gratos por termos vencido essas guerras.
No fundo, estas ladainhas parecem é querer condenar-nos a uma felicidade "tóxica". Porque se não temos a capacidade de nos fazermos felizes e agradecermos cada inspiradela de oxigénio que damos, com maior ou menor esforço (pois se esforçadas melhor ainda - não há nada melhor do que conquistarmos aquilo pelo qual suámos as estopinhas), passamos a ser nós os próximos "tóxicos" a abater.
E vamos para abate porque isto de "ter sem lutar", "ter sem agradecer depois", "ser sem empenho e sofrimento" são tudo coisas desvalorizadas, de gente que "só pode estar a abusar dos outros ou da sorte", dos narcisos que poluem o ar dos puros e imaculados membros da ordem das "pessoas de bem" que "fazem acontecer".
Resumindo, é-nos exigida felicidade e depois gratidão, mas só podemos agradecer pela felicidade que conseguimos com alguma dor. Porque a felicidade espontânea e indolor, aquela que acontece assim, sem mexermos uma palha, é coisa reles, de gente tontinha ou inconsequente, que não se faz à vida... É coisa dessa gente ingrata ou, pior ainda, de gente preguiçosa e infeliz.