Às escuras
São várias as fases que a vida nos traz.
Passamos por ciclo após ciclo. Umas vezes somos acrobatas, outras minúsculos trôpegos a cambalear por aí.
Ginasticamo-nos e contorcemo-nos ao sabor das curvas e contra-curvas da vida. Umas vezes em pleno equilíbrio e noutras a beirar o abismo.
Mas a beleza desta coisa que se diz ser viver é também essa, a de, apesar de às claras, não sabermos de antemão onde nos levam os caminhos que zizagueamos por aí e onde vamos parar. Ou talvez, no fundo, bem no fundo, todos saibamos que vamos acabar numa caixa debaixo da terra ou desfeitos em pó num qualquer cofrezito bafiento.
Mas enquanto esse momento não chega, ginasticamos o corpo e a mente em busca de momentos, sensações, sentimentos, emoções, recordações.
Entregamo-nos de corpo e alma a causas, pessoas, instantes... Nem sempre com a mesma vontade ou a mesma dose de entrega, é certo, mas empregamos esforços e energia em prol de algumas dessas dádivas que respirar nos vai permitindo.
Somos generosos quando nos embalamos em papel de embrulho e colocamos o lacinho no cocuruto da cabeça para nos darmos à vida. Sim, este será um dos nossos maiores actos de generosidade: Oferecermo-nos às situações sem artifícios, com toda a sinceridade de que somos capazes.
Mas a generosidade também cansa e desgasta até a pessoa mais franca...
E há momentos em que nos apetece (e precisamos) fechar os olhos, agarrar o braço de quem nos guie e deixarmo-nos conduzir até onde nos quiserem levar, às escuras e completamente às cegas.