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Espelho da alma

É incrível como o corpo reflete as dores e os prazeres da alma. Tenho-me observado neste campo e percebido que o meu estômago se fecha cada vez que me sinto angustiada. É como se ele não tolerasse mais nada para além da angústia que me assola, como se se enchesse e alimentasse dela.  Como se dissesse, se os estômagos pudessem falar, "Já chega! Deixa-me lá tentar digerir isto. Não me dês mais porcarias porque esta angústia já me dá água pela barba". Talvez o corpo seja uma espécie de espelho da alma que nos vai mostrando quando estamos a ir longe de mais, quando estamos a seguir caminhos que lhe são insuportáveis. Ao longo da vida, o meu corpo foi-me dando sempre sinais. Ora adoecia, ora fazia-se forte para superar as dores do coração. Parece-me que se temos de ouvir o coração, também devemos ouvir o corpo. Ambos dizem-nos muitas coisas dignas de serem escutadas com atenção. O problema estará em saber quando ouvir um ou o outro. Porque não são raras as vezes que se contradizem...

Sinto muito!

Sinto muito e penso demasiado. Tento interpretar constantemente o que sinto e é aí que mora a dificuldade. É aí que travo batalhas interiores gigantes, porque o turbilhão de estímulos que o que sinto provoca causa o caos cá dentro. Sei que as novas tendências da "psicologia de pacote", aquela que nos aparece em vídeos nas redes sociais, nos vende a ideia de que o "overthinking" é mau, porque nos desconecta dos sentimentos e nos impede de desfrutar as emoções. Mas comigo não é assim. É precisamente o contrário. Porque nunca me consigo desconectar daquilo que sinto. E pensar serve (ou tenta servir) para conseguir compreender aquilo que sinto, o que nem sempre é bem sucedido. Infelizmente. No entanto, não é por pensar em demasia que deixo de sentir e seguir o que me diz o coração. Sigo-o sempre, mesmo que antes disso o tente calar. E tento, tento tanto e tantas vezes... No fim, e bem cá no fundo, sei que é ele que tem sempre razão. Porque se eu não o seguir, deixarei d...

Progresso

Temos a sensação que evoluímos muito, que as tecnologias nos vieram trazer progresso e grande desenvolvimento. No entanto, continuamos em rebanhos a caminhar para as fábricas de produção em massa. Já não produzimos maquinaria ou bugigangas, é certo. Agora produzimos clientes felizes. Construímos utilizadores bem contentinhos, a pensar que nos importamos francamente com os seus problemas.  A nós, querem-nos ovelhas que trabalhem ao ritmo da inteligência artificial, mas com sentimentos humanos. Bem empáticos, porém com o foco nas avaliações que nos irão dar pelas nossas oito horas na fábrica de satisfação do cliente (e que atentemos aos números, sempre os números que irão graduar a nossa competência). Entramos à hora certa e saímos à hora possível; preferencialmente tarde para mostrar que estamos muito concentrados no objectivo de ver o utilizador sorrir. Temos o almoço cronometrado e os minutos dos xixis contados, qual fábrica em plena revolução industrial. Cocó? Só em casa, pois de...

Poço básico

Fazem-me falta os animais.  Em tempos, tive gatos, cães e cavalos. Com a maior parte dos cães não consegui encontrar a expressão certa. Nunca nos entendemos bem, apesar de gostar muito deles. Apenas um entrou de rompante no meu peito e, acredito, eu no dele. Também tive peixes e pássaros, mas esses não me trazem qualquer saudade. Que me perdoem. Dos gatos e dos cavalos falta-me o pêlo, o cheiro, o toque. Até as lambidelas pelas línguas de lixa dos gatos me carecem. Dou-me bem com eles. Até com os desconhecidos. Somos iguais, funcionamos da mesma forma, entendemo-nos bem. Há qualquer coisa para além da linguagem na nossa comunicação. Como se houvesse muitas palavras não proferidas nos nossos olhares. Não sei explicar, mas é qualquer coisa como se lêssemos os pensamentos uns dos outros; como se, ao nos cheirarmos, olharmos, sentirmos, percebessemos tudo uns dos outros. Falamos telepaticamente, talvez, se é que isso é possível. Não acredito nestas coisas espirituais, mas, de certa for...

Tudo, ou quase tudo, de mim

Ando a ler um livro chamado "Tudo do amor" que me tem dado pontos de vista diferentes sobre o assunto. Assunto difícil, é certo, mas muito digno de reflexão. Ainda mais observando-o sob uma perspectiva da evolução histórica tanto da sociedade, quanto das estruturas familiares e das relações. Não sei se toda a gente tem, como eu, algumas ideias preconcebidas sobre o amor. Ideias do género: "o amor não se entende, sente-se"; "no amor vale tudo, é deixar ir e ver o que acontece"; "sentimentos não se explicam"; e por aí fora. Se tem, este livro vem pôr em causa algumas destas ideias. Não que cheguemos à conclusão que elas estão necessariamente erradas, não estarão, de certo, em algumas situações; ou não quer dizer que, depois de lermos o livro, deixemos de acreditar nelas, mas dá -nos muito que pensar. Isso, sem dúvida. Na verdade, muitas destas ideias que eu tinha (tenho), estão a sair reforçadas depois de ter chegado a meio do livro (no final, isto...

O vizinho

Oiço o vizinho ressonar. Todas as noites, o som do sono dele atravessa as paredes e invade-me o quarto.  É quase como se estivesse aqui ao lado, paredes meias comigo. Com o que estará a sonhar, perguntou-me amiúde...  Que aventuras, fruto da sua imaginação adormecida, o farão respirar tão ruidosamente? Estará a escalar montanhas neste preciso momento? Ou voará pelos céus julgando-se uma águia em busca de presas?  Fugirá, em risco de vida, de inimigos cruéis? Ou acreditará que se não chegar à superfície da água a tempo morrerá afogado? Ou terá, apenas, o cérebro afogado num imenso vazio? Quiçá nada disso. Dorme e pronto!

Felicidade tóxica

Estamos na Era das cenas tóxicas e da gratidão. Parece quase uma contradição, quando tudo é tóxico, termos de agradecer. Talvez seja por tudo ter, supostamente, um elevado potencial tóxico, que devemos agradecer quando somos abençoados pela ausência dessa maldita toxicidade. O encadeamento deste raciocínio até pode ter alguma lógica, mas se nos guiarmos por ele, tendemos a tornar-nos escravos - tanto da fuga à toxicidade alheia (porque geralmente é alheia e nós nunca somos os primeiros tóxicos da coisa), como da gratidão por termos de estar sempre gratos quando a nossa vida é isenta de algo "tóxico". Se não temos pessoas tóxicas, relações tóxicas, sentimentos tóxicos e/ou experiências tóxicas para combater, somos gente com umas vidinhas ocas e desinteressantes. Se somos os desinteressantes abençoados das vidas vazias, haverá sempre uma qualquer coisa potencialmente nociva da qual nos devemos esquivar para não sermos contagiados. Porque o importante é batalharmos para sermos f...

Heróis

Não acredito em actos heróicos e, muito menos, em heróis. Quem se diz herói e acredita que faz impossíveis mente, nem tanto aos outros, mas a si próprio. Fazemos o que temos de fazer, quando nos deparamos com os acontecimentos da vida. Fazemos porque temos de fazer e se fazemos é porque é possível. Não, amigos, não somos nenhuns super-homens (vá, ou super-mulheres; ou ainda super-qualquer-coisas, para não excluir ninguém nem ferir susceptibilidades), somos apenas pessoas à rasca que têm que se desenrascar. "Ah, e tal, que corajosa que ela foi..."; "ah, e tal, tu és um guerreiro!" A porra é que somos corajosos e guerreiros! Somos só gente a reagir a qualquer merda que nos aconteceu. E reagimos porque isso está na nossa natureza animal e humana. Reagimos porque tem de ser e a reacção ou o acto que provém dela não nos torna heróis nem concretiza impossíveis. Lamento desiludir-vos, meus queridos "heróis", mas vocês não são nada de mais, são tão somente mais un...

Às escuras

São várias as fases que a vida nos traz. Passamos por ciclo após ciclo. Umas vezes somos acrobatas, outras minúsculos trôpegos a cambalear por aí. Ginasticamo-nos e contorcemo-nos ao sabor das curvas e contra-curvas da vida. Umas vezes em pleno equilíbrio e noutras a beirar o abismo. Mas a beleza desta coisa que se diz ser viver é também essa, a de, apesar de às claras, não sabermos de antemão onde nos levam os caminhos que zizagueamos por aí e onde vamos parar. Ou talvez, no fundo, bem no fundo, todos saibamos que vamos acabar numa caixa debaixo da terra ou desfeitos em pó num qualquer cofrezito bafiento. Mas enquanto esse momento não chega, ginasticamos o corpo e a mente em busca de momentos, sensações, sentimentos, emoções, recordações. Entregamo-nos de corpo e alma a causas, pessoas, instantes... Nem sempre com a mesma vontade ou a mesma dose de entrega, é certo, mas empregamos esforços e energia em prol de algumas dessas dádivas que respirar nos vai permitindo. Somos generosos qua...

Será?

Descobri recentemente que há uma moda de fotos de perfil nas redes sociais com pessoas de braços abertos com ambientes vários a adornar o fundo. Podem ser praias paradisíacas, campos sem fim, cidades cosmopolitas, ou qualquer outra coisa dita maravilhosa. Parece que geralmente isto se relaciona com a capacidade dessas pessoas conquistarem cenas na vida. São fotos de pessoas que vão para além dos seus limites, atingem metas inalcançáveis, estão felizes com tudo o que a vida lhes dá, trazem muita "gratidão" nos seus coraçõeszinhos e são gente muito boa e abençoada. Eu que sou uma descrente, infeliz, céptica e não pratico o culto da gratidão (sou uma ingrata, portanto), quando vejo estas fotos tão felizes e graciosas, interrogo-me. Será que isto é mesmo real? Será que estas pessoas são mesmo tão felizes como parecem? Será isto apenas para convencerem os outros, e a si mesmas, que estão felizes? Será que isto não é apenas o resultado de uma imensa e profunda infelicidade e serve ...

Preconceituosa me confesso...

O título desta coisa que hoje vos escrevo é (caso ainda não tenham reparado) "Preconceituosa me confesso", no entanto vou começar este escrito informando-vos de que não sou nada preconceituosa. Contraditório, certo? Certo! Não sou preconceituosa (agora podia continuar a escrever mais uns quantos parágrafos a dizer a mesma coisa, do tipo "o título diz que sou preconceituosa, mas eu não sou" e isto seria uma dissertação digna de valor em algumas áreas profissionais, mas não vos vou maçar com isso, porque se há coisa que respeito são as palavras, vá, e as pessoas que se dão ao trabalho de ler as minhas. E já vão perceber porquê). Mas, voltando a este meu preconceito gingão...  Quando me confesso preconceituosa, digo que o sou porque, tal como adoro palavras e as respeito, há algumas que me provocam urticária e, por isso, torno-me altamente preconceituosa quanto a essas palavras impronunciáveis, e só as pronuncio se cobertas por uma grande camada de escárnio e incluídas...

Inteira

Quem me dera voltar atrás, ir lá longe buscar-me, onde me deixei em pedaços espalhados pelo chão. Juntá-los e reconstruir-me. Tornar-me inteira como um dia fui.

O amor é um lugar notável

Dos vários amores que nos passam pelo peito, há poucos que se demoram. Amor que resiste à corrosão do tempo é amor valente, que abarca virtudes e defeitos. Amar virtudes é tarefa fácil e imediata. Por outro lado, amar imperfeições é raro, árduo até. Pertence apenas a amores imensos como são os próprios, os paternais ou os amorosos raros. Se o amor paternal é o mais simples de chegar a qualquer um de nós, porque o ser pequenino e indefeso que gerámos nos faz produzir oxitocina a jorros sempre que o, sequer, imaginamos, já o próprio e o amoroso não são tão comuns.  O próprio pode requerer uma vida inteira de treino e labuta dolorosa para se conseguir, primeiro, aceitar e, depois apreciar, aquilo que consideramos deficiente em nós.  Não sendo impossível, é uma empreitada quase interminável.  Características físicas que não encaixam nos nossos parâmetros de beleza mais primários; ou psicológicas que não nos favorecem e que desejámos sempre mudar, só são passíveis de serem gos...

Caixinha pequenina

Quando isto chegar ao fim, vou guardar as memórias dentro de uma caixinha bem pequenina. Não que elas sejam poucas ou pequenas, mas para que mais ninguém consiga encontrar essa caixinha para além de mim. Quero as memórias encolhidas para não me fazerem sofrer. Servirão só para me alegrarem os dias tristes. Nesses em que abrirei a caixinha e espreitarei lá para dentro, sei que inspirarei bem fundo para lhes sentir o cheiro, levarei a lupa para lhes ver os pormenores e de certeza que nos encontrarei, minúsculos, mas abraçados. Com sorte, poderei prová-las. Porque as memórias boas têm gosto a horas bem passadas. E com mais sorte ainda, conseguirei até degustá-las, saborear-lhes o picante adocicado com que as deixámos. Mas não as deixarei quebrarem-me, isso não, porque na altura em que estiver pronta para abrir a caixinha, serei mais forte do que hoje e já terei aprendido a não sofrer de nostalgias ou amores perdidos. Nesse dia, que se aproxima, mas que ainda virá, já terei esquecido as má...

O espelho

Passei de não me querer olhar ao espelho para olhar e não me reconhecer. Se dantes era a imagem que me afastava, porque não me sentia bem naquele corpo, hoje são os sentimentos que não sinto como meus que ali se reflectem. Tento que me abandonem a todo o custo, mas perseguem-me pelos becos e ruelas por onde zigazeio para os despistar. São insistentes e parece que frequentaram um qualquer curso de detetive para me voltarem a encontrar. Já lhes disse que essa, que sente isso, não sou eu, mas não me acreditam e assombram-me sonhos e atravessam-se à frente daqueles que considero meus. É como se, em vez do corpo, fosse agora a alma que se me disforma. Os contornos são-me alheios, são de uma outra, cheia de desconfianças, de olhar por cima de ambos ombros, a temer o golpe fatal sobre a mínima felicidade ou satisfação que ousem aparecer. Pudesse eu arrancar estes sentimentos do peito, ou apagá-los do espelho, e talvez me voltasse a identificar na imagem que me olha, agora, com tristeza. Quem ...