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Tudo, ou quase tudo, de mim

Ando a ler um livro chamado "Tudo do amor" que me tem dado pontos de vista diferentes sobre o assunto. Assunto difícil, é certo, mas muito digno de reflexão. Ainda mais observando-o sob uma perspectiva da evolução histórica tanto da sociedade, quanto das estruturas familiares e das relações. Não sei se toda a gente tem, como eu, algumas ideias preconcebidas sobre o amor. Ideias do género: "o amor não se entende, sente-se"; "no amor vale tudo, é deixar ir e ver o que acontece"; "sentimentos não se explicam"; e por aí fora. Se tem, este livro vem pôr em causa algumas destas ideias. Não que cheguemos à conclusão que elas estão necessariamente erradas, não estarão, de certo, em algumas situações; ou não quer dizer que, depois de lermos o livro, deixemos de acreditar nelas, mas dá -nos muito que pensar. Isso, sem dúvida. Na verdade, muitas destas ideias que eu tinha (tenho), estão a sair reforçadas depois de ter chegado a meio do livro (no final, isto...

O vizinho

Oiço o vizinho ressonar. Todas as noites, o som do sono dele atravessa as paredes e invade-me o quarto.  É quase como se estivesse aqui ao lado, paredes meias comigo. Com o que estará a sonhar, perguntou-me amiúde...  Que aventuras, fruto da sua imaginação adormecida, o farão respirar tão ruidosamente? Estará a escalar montanhas neste preciso momento? Ou voará pelos céus julgando-se uma águia em busca de presas?  Fugirá, em risco de vida, de inimigos cruéis? Ou acreditará que se não chegar à superfície da água a tempo morrerá afogado? Ou terá, apenas, o cérebro afogado num imenso vazio? Quiçá nada disso. Dorme e pronto!

Felicidade tóxica

Estamos na Era das cenas tóxicas e da gratidão. Parece quase uma contradição, quando tudo é tóxico, termos de agradecer. Talvez seja por tudo ter, supostamente, um elevado potencial tóxico, que devemos agradecer quando somos abençoados pela ausência dessa maldita toxicidade. O encadeamento deste raciocínio até pode ter alguma lógica, mas se nos guiarmos por ele, tendemos a tornar-nos escravos - tanto da fuga à toxicidade alheia (porque geralmente é alheia e nós nunca somos os primeiros tóxicos da coisa), como da gratidão por termos de estar sempre gratos quando a nossa vida é isenta de algo "tóxico". Se não temos pessoas tóxicas, relações tóxicas, sentimentos tóxicos e/ou experiências tóxicas para combater, somos gente com umas vidinhas ocas e desinteressantes. Se somos os desinteressantes abençoados das vidas vazias, haverá sempre uma qualquer coisa potencialmente nociva da qual nos devemos esquivar para não sermos contagiados. Porque o importante é batalharmos para sermos f...

Heróis

Não acredito em actos heróicos e, muito menos, em heróis. Quem se diz herói e acredita que faz impossíveis mente, nem tanto aos outros, mas a si próprio. Fazemos o que temos de fazer, quando nos deparamos com os acontecimentos da vida. Fazemos porque temos de fazer e se fazemos é porque é possível. Não, amigos, não somos nenhuns super-homens (vá, ou super-mulheres; ou ainda super-qualquer-coisas, para não excluir ninguém nem ferir susceptibilidades), somos apenas pessoas à rasca que têm que se desenrascar. "Ah, e tal, que corajosa que ela foi..."; "ah, e tal, tu és um guerreiro!" A porra é que somos corajosos e guerreiros! Somos só gente a reagir a qualquer merda que nos aconteceu. E reagimos porque isso está na nossa natureza animal e humana. Reagimos porque tem de ser e a reacção ou o acto que provém dela não nos torna heróis nem concretiza impossíveis. Lamento desiludir-vos, meus queridos "heróis", mas vocês não são nada de mais, são tão somente mais un...

Às escuras

São várias as fases que a vida nos traz. Passamos por ciclo após ciclo. Umas vezes somos acrobatas, outras minúsculos trôpegos a cambalear por aí. Ginasticamo-nos e contorcemo-nos ao sabor das curvas e contra-curvas da vida. Umas vezes em pleno equilíbrio e noutras a beirar o abismo. Mas a beleza desta coisa que se diz ser viver é também essa, a de, apesar de às claras, não sabermos de antemão onde nos levam os caminhos que zizagueamos por aí e onde vamos parar. Ou talvez, no fundo, bem no fundo, todos saibamos que vamos acabar numa caixa debaixo da terra ou desfeitos em pó num qualquer cofrezito bafiento. Mas enquanto esse momento não chega, ginasticamos o corpo e a mente em busca de momentos, sensações, sentimentos, emoções, recordações. Entregamo-nos de corpo e alma a causas, pessoas, instantes... Nem sempre com a mesma vontade ou a mesma dose de entrega, é certo, mas empregamos esforços e energia em prol de algumas dessas dádivas que respirar nos vai permitindo. Somos generosos qua...

Será?

Descobri recentemente que há uma moda de fotos de perfil nas redes sociais com pessoas de braços abertos com ambientes vários a adornar o fundo. Podem ser praias paradisíacas, campos sem fim, cidades cosmopolitas, ou qualquer outra coisa dita maravilhosa. Parece que geralmente isto se relaciona com a capacidade dessas pessoas conquistarem cenas na vida. São fotos de pessoas que vão para além dos seus limites, atingem metas inalcançáveis, estão felizes com tudo o que a vida lhes dá, trazem muita "gratidão" nos seus coraçõeszinhos e são gente muito boa e abençoada. Eu que sou uma descrente, infeliz, céptica e não pratico o culto da gratidão (sou uma ingrata, portanto), quando vejo estas fotos tão felizes e graciosas, interrogo-me. Será que isto é mesmo real? Será que estas pessoas são mesmo tão felizes como parecem? Será isto apenas para convencerem os outros, e a si mesmas, que estão felizes? Será que isto não é apenas o resultado de uma imensa e profunda infelicidade e serve ...

Preconceituosa me confesso...

O título desta coisa que hoje vos escrevo é (caso ainda não tenham reparado) "Preconceituosa me confesso", no entanto vou começar este escrito informando-vos de que não sou nada preconceituosa. Contraditório, certo? Certo! Não sou preconceituosa (agora podia continuar a escrever mais uns quantos parágrafos a dizer a mesma coisa, do tipo "o título diz que sou preconceituosa, mas eu não sou" e isto seria uma dissertação digna de valor em algumas áreas profissionais, mas não vos vou maçar com isso, porque se há coisa que respeito são as palavras, vá, e as pessoas que se dão ao trabalho de ler as minhas. E já vão perceber porquê). Mas, voltando a este meu preconceito gingão...  Quando me confesso preconceituosa, digo que o sou porque, tal como adoro palavras e as respeito, há algumas que me provocam urticária e, por isso, torno-me altamente preconceituosa quanto a essas palavras impronunciáveis, e só as pronuncio se cobertas por uma grande camada de escárnio e incluídas...

Inteira

Quem me dera voltar atrás, ir lá longe buscar-me, onde me deixei em pedaços espalhados pelo chão. Juntá-los e reconstruir-me. Tornar-me inteira como um dia fui.

O amor é um lugar notável

Dos vários amores que nos passam pelo peito, há poucos que se demoram. Amor que resiste à corrosão do tempo é amor valente, que abarca virtudes e defeitos. Amar virtudes é tarefa fácil e imediata. Por outro lado, amar imperfeições é raro, árduo até. Pertence apenas a amores imensos como são os próprios, os paternais ou os amorosos raros. Se o amor paternal é o mais simples de chegar a qualquer um de nós, porque o ser pequenino e indefeso que gerámos nos faz produzir oxitocina a jorros sempre que o, sequer, imaginamos, já o próprio e o amoroso não são tão comuns.  O próprio pode requerer uma vida inteira de treino e labuta dolorosa para se conseguir, primeiro, aceitar e, depois apreciar, aquilo que consideramos deficiente em nós.  Não sendo impossível, é uma empreitada quase interminável.  Características físicas que não encaixam nos nossos parâmetros de beleza mais primários; ou psicológicas que não nos favorecem e que desejámos sempre mudar, só são passíveis de serem gos...

Caixinha pequenina

Quando isto chegar ao fim, vou guardar as memórias dentro de uma caixinha bem pequenina. Não que elas sejam poucas ou pequenas, mas para que mais ninguém consiga encontrar essa caixinha para além de mim. Quero as memórias encolhidas para não me fazerem sofrer. Servirão só para me alegrarem os dias tristes. Nesses em que abrirei a caixinha e espreitarei lá para dentro, sei que inspirarei bem fundo para lhes sentir o cheiro, levarei a lupa para lhes ver os pormenores e de certeza que nos encontrarei, minúsculos, mas abraçados. Com sorte, poderei prová-las. Porque as memórias boas têm gosto a horas bem passadas. E com mais sorte ainda, conseguirei até degustá-las, saborear-lhes o picante adocicado com que as deixámos. Mas não as deixarei quebrarem-me, isso não, porque na altura em que estiver pronta para abrir a caixinha, serei mais forte do que hoje e já terei aprendido a não sofrer de nostalgias ou amores perdidos. Nesse dia, que se aproxima, mas que ainda virá, já terei esquecido as má...

O espelho

Passei de não me querer olhar ao espelho para olhar e não me reconhecer. Se dantes era a imagem que me afastava, porque não me sentia bem naquele corpo, hoje são os sentimentos que não sinto como meus que ali se reflectem. Tento que me abandonem a todo o custo, mas perseguem-me pelos becos e ruelas por onde zigazeio para os despistar. São insistentes e parece que frequentaram um qualquer curso de detetive para me voltarem a encontrar. Já lhes disse que essa, que sente isso, não sou eu, mas não me acreditam e assombram-me sonhos e atravessam-se à frente daqueles que considero meus. É como se, em vez do corpo, fosse agora a alma que se me disforma. Os contornos são-me alheios, são de uma outra, cheia de desconfianças, de olhar por cima de ambos ombros, a temer o golpe fatal sobre a mínima felicidade ou satisfação que ousem aparecer. Pudesse eu arrancar estes sentimentos do peito, ou apagá-los do espelho, e talvez me voltasse a identificar na imagem que me olha, agora, com tristeza. Quem ...

No limbo

A vida passa-nos depressa ou devagar conforme o momento que estamos a viver é bom ou mau. Queremos prolongar os momentos bons, mas nem sempre o conseguimos. Eles são teimosamente curtos. Ainda mais quando temos consciência que irão ter um fim próximo... Tendemos ao sofrimento por antecipação, que pode ser ainda pior do que o sofrimento real. Porque nas nossas cabeças e corações pode acontecer tudo, o verdadeiro e o imaginário. Seria mais fácil se tivéssemos uma bola de cristal que nos permitisse ver o futuro e nos desse certezas. E, no entanto, o certo pode ser tão monótono e aborrecido que adormecemos no caminho e não saboreamos o presente. Como ficamos então? Ficamos assim, no limbo da vida, constantemente a desejar apressar ou retardar o tempo, a querer viver ou hibernar, consoante o sofrimento aperta ou a felicidade desperta. (Olha, até rimou!) Mas o tempo é imutável e não se compadece com as nossas necessidades. Alguns dirão felizmente, outros infelizmente, à vida ser tão somente ...

Incontinências da vida

Nem sempre nos conseguimos conter. A vida atravessa-nos obstáculos no caminho que nos impedem de experimentar a contenção. Não que bloquearmos as emoções ou fecharmo-nos em nós seja sempre positivo. Muitas vezes não é. Mas nalgumas situações ajudar-nos-ia a evitar a dor. A nossa e a dos outros. Vejo-me incontinente de emoções. Há apenas um vidro impecavelmente limpo entre o que sinto e o que transpareço. Sou emoção, muito mais do que raciocínio ou ponderação. E isso magoa, e saca lebres da toca. Levanta questões que só existiriam nos locais mais recônditos de mim se não as mostrasse, e que, quando visíveis no meu reflexo ou aos olhos dos outros, se tornam monstruosas. Tenho, por hábito ou defeito, a tendência de questionar tudo e duvidar até da minha própria sombra, o que associado à minha incontinência emocional, me torna algo parecido com uma bomba kamikaze. Pudesse eu explodir em qualquer lado,  escolheria que fosse para dentro.

Multidões sobre a cabeça

No fundo, nunca estamos completamente sozinhos. Talvez depois de morrermos, mas nunca antes disso. Há sempre um avião que atravessa os céus, cheio de gente dentro. Apercebi-me disto com o filme "Into the wild", que vi vezes sem conta. E desde aí, reparo sempre no céu quando me quero só. No filme, como na vida afinal, o protagonista, apesar de numa imensa solidão e "into the wild", tem sempre um avião a cruzar-lhe os céus.  Hoje, sempre que tento estar só, olho o céu para me certificar se há uma linha desenhada pelo passar de um avião. Se a vejo, e vejo-a quase sempre, penso na multidão que paira sobre a minha cabeça e me impede de estar realmente só. Talvez por sentir que esta solidão me é negada, tenha aprimorado o reflexo de me pôr para dentro. Cá dentro não há multidões. Sou só eu, às vezes múltiplas eu, mas apenas eu. Não sei se toda a gente tem esta necessidade de solidão. Mas parece-me que há pessoas que ou temem estar apenas consigo próprias e enfrentar o sil...

Pé na areia e mar ao pé

Pé na areia e mar ao pé. O som das ondas embalam -me os pensamentos. São tantos os que me assolam que fazem fila na correnteza da minha mente. Alguns ultrapassam outros e os outros tentam impor-se. "Eu estava primeiro, só podes chegar quando eu acabar!", parecem dizer. Mas eles não ouvem, eles só falam. Falam alto e correm uns atrás dos outros. Parecem pessoas na bicha do supermercado, com as compras nas mãos, na urgência de as pousarem na passadeira da caixa. Tenho pensamentos velhos e jovens, como os clientes de um supermercado.  Os velhos acham que já sabem tudo e, porque são velhos e sábios, têm prioridade perante os novos. Os jovens vêm cheios de certezas que descobriram a pólvora e que vão mudar o mundo tanto com a pólvora recém descoberta quanto com a sua frescura de jovens. Ambos estão certos e errados. Talvez por isso se tentem atropelar na minha cabeça. Mas perdem a razão quando não passam de pensamentos em fúria. Tal como os clientes do supermercado a lutar por um ...