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À velocidade das máquinas

Estou numa nova função no meu trabalho. Não é melhor do que a anterior. É pior em propósito. Pelo menos para mim que desprezo trabalhar em funções que tenham como fim ganhar dinheiro.  Podiam dizer: "mas se trabalhas é para ganhar dinheiro, ou não?!". Não, eu trabalho para sobreviver e, para sobreviver, infelizmente, tenho de ganhar dinheiro. Se não fosse preciso ganhar dinheiro, trabalharia só naquilo de que gosto, que, infelizmente mais uma vez, não me sustenta. Dinheiro não é o meu objectivo, nunca foi. Não tenho grandes pretensões monetárias ou materiais, nem sequer gosto muito de números. Quero só viver sem ter de pensar em trocos para conseguir ter uma vida mais ou menos confortável. Não sei se me fiz entender bem, mas não interessa muito também. Passando à frente. Neste "novo trabalho" continuo agarrada a um computador. Coisa que já me chateia um bocado, sinceramente. Especialmente quando é para fazer coisas sem um pingo de criatividade, coisas que preciso ap...

Esculturas

Tenho sentido um enorme prazer em criar as minhas Personas . Inventar uma personalidade, fisionomia e toda uma vida à volta de uma personagem, a partir de qualquer coisa que vejo ou sinto, tem sido o combustível para conseguir sobreviver ao meu trabalho de merda.  O meu trabalho é definitivamente uma merda. Não me diz nada. Introduzo dados em plataformas, dados completamente insignificantes para mim, mas de imensa importância para empresas e pessoas que também não são nada importantes para mim.  Durante oito horas por dia, com intervalos de uma hora para almoço e de dez minutos a meio da manhã e mais dez minutos a meio da tarde, digito insignificâncias como se não houvesse amanhã, ao jeito de uma máquina industrial. De facto, sou isto profissionalmente, mas, acredito, não me resumo a isto. Porque escrevo e imagino coisas na hora que tenho livre para almoçar e nos vinte minutos, divididos em duas parcelas, que me dão para comer, ir à casa-de-banho, fumar, olhar para além de um ...

Para além do mar

Pudesse eu olhar para além do mar e veria nos olhos tudo o que os lábios expressam. Se há conteúdo profundo é o que se consegue ler nas entrelinhas dos actos e das palavras. As palavras são poderosos artifícios da linguagem. Podem ser tanto encantamento quanto verdade. Já os actos são instinto ou representação.  Mas as pausas, os silêncios e a inacção podem estar mais cheias de significado do que o que dizemos ou fazemos. Pudesse eu olhar para além do mar e ouviria tudo o que o silêncio não diz.

Arte

Quanto mais velha vou ficando mais valor vou dando à arte na minha vida. Tenho percebido que das coisas que me dá mais prazer é este contacto com obras de arte. Da literatura às artes visuais, passando pela música, pelo teatro, pela fotografia, cinema, e até pelo desporto (sim, também há arte no desporto) todas me preenchem de alguma forma. Contemplar a criatividade dos artistas e respirar-lhes as criações enche-me as medidas. Fico cheia por dentro. Como se me alimentassem e me preenchessem os espaços que tenho vazios, espaços vagos na alma a precisar de ocupar com ideias, peças e acontecimentos preciosos. Bebo arte pelos olhos, ouvidos, nariz e boca. Bebo arte, às vezes, até com as pontas dos dedos.  Sorvo-a, quase insaciavelmente. Porque quanto mais a consumo, mais sinto necessidade de consumir mais e mais. Talvez esteja a tornar-me numa viciada em criatividade alheia. Ou talvez esteja a fazer aquele balanço da vida (de que já falei aqui anteriormente) em que pesamos as coisas qu...

Jingle Bell

"O Natal é quando um homem quiser", dizem as más línguas. Mas o Natal também pode deixar de ser se um "homem" assim o quiser.  Eu quero. Não gosto do Natal. Aliás, detesto o Natal. Gostava que deixasse de existir. Gostava mesmo de ser eu a deixar de existir durante o Natal. Enfiar a cabeça na areia e fingir que não há Natal; que não vejo as luzes coloridas a iluminar as ruas; não oiço o Jingle Bell a toda hora; não vejo os presépios e árvores de Natal pelas janelas das casas; não vejo os presentes embrulhados em papéis foleiros, ou os pais Natal de pano pendurados nos prédios, nem as centenas de homens de barbas brancas falsas mascarados nos centros comerciais e feiras alusivas à época. Não gosto da cena religiosa, porque não gosto de religiões. Consigo vislumbrar alguma utilidade nelas para acalmar os espíritos e dar conforto às almas, mas acho-as "tóxicas" (empregando a palavra da moda). Acho que se tira muito pouco do bem que fazem às pessoas se pusermo...

Parto de luz

Há um consenso na paixão pelo pôr-do-sol. Vemos pessoas a fazer excursões às praias para o apreciar e viver o momento intensamente. Compreendo isso, também me deleito a ver o sol cair sobre as águas do mar. Há uma magia no acontecimento. Vemos o fecho do dia, e vamos ficando iluminados pela luz rosa, depois azul e, por fim, o lusco-fusco abraça-nos generosamente (adoro esta palavra "lusco-fusco"!). Sou adepta do pôr-do-sol, mas prefiro vê-lo nascer. Talvez porque na minha terra ele nasce sobre o rio, talvez porque sendo eu meia notívaga me encante da mesma forma que o pôr-do-sol encanta as pessoas que o vêem nos seus finais de dia. Talvez porque me traz uma nova esperança, uma ideia de recomeço, de renovação.  Talvez ainda porque era habitual vê-lo quando trabalhava no que realmente gosto de fazer.  Naquele tempo, terminava as minhas escritas e o sol nascia. Assim, como que a pôr um ponto final nos artigos que levava horas a redigir. Passava a noite a escrever; a elaborar tex...

Meio sonho, meio pesadelo

Esta noite sonhei que, de repente, entravas porta adentro, rasgavas-me a roupa, abraçavas-me como se o mundo estivesse todo no meu abraço, beijavas-me como se tivesses apenas um minuto para o fazer e dizias-me que a vida sem mim não fazia qualquer sentido... Sussurrasvas-me ao ouvido eternas juras de amor na linguagem que, num dia de delírios conjuntos, inventámos. Mas, de repente, enquanto ainda estava a meio deste encantamento, passaram a ser horas de levantar, lavar os dentes e ir trabalhar.  Acordei estremunhada, enrolei o meu coração sangrento em compressas esterilizadas e segui para mais um dia. Esta noite, tive um sonho. Meio sonho, meio pesadelo.

Perdida

Ando perdida e tenho tido alguma dificuldade em reencontrar-me. É como se estivesse constantemente à minha procura por becos e ruelas e me fosse escondendo a cada curva.  Há uma esquina e vejo, de relance, o meu braço que a cruza. Vejo o braço, mas não vejo mais nada. O resto do corpo já desapareceu. Por vezes, consigo vislumbrar o ombro, mas nada mais. Já fui, já passei para o outro lado da rua. Talvez isto esteja de alguma forma relacionado com a famosa meia-idade. Idade esta em que fazemos balanços do que fomos, do que ainda queremos ser e do que realmente somos, afinal. Na verdade, não sei muito bem... Não sei bem nem mal, não sei nada. As dúvidas estão centradas no que sou agora e no ainda quero vir a ser. Se é que sou e ainda virei a ser alguma coisa diferente do que fui ou do que sou, se sou... Se sou... Vivo nesta indefinição. Umas vezes parece-me que cheguei a uma conclusão, outras parece-me que está tudo ainda mais indefinido, como que enevoado, cheio de nuvens de incerte...

Espelho da alma

É incrível como o corpo reflete as dores e os prazeres da alma. Tenho-me observado neste campo e percebido que o meu estômago se fecha cada vez que me sinto angustiada. É como se ele não tolerasse mais nada para além da angústia que me assola, como se se enchesse e alimentasse dela.  Como se dissesse, se os estômagos pudessem falar, "Já chega! Deixa-me lá tentar digerir isto. Não me dês mais porcarias porque esta angústia já me dá água pela barba". Talvez o corpo seja uma espécie de espelho da alma que nos vai mostrando quando estamos a ir longe de mais, quando estamos a seguir caminhos que lhe são insuportáveis. Ao longo da vida, o meu corpo foi-me dando sempre sinais. Ora adoecia, ora fazia-se forte para superar as dores do coração. Parece-me que se temos de ouvir o coração, também devemos ouvir o corpo. Ambos dizem-nos muitas coisas dignas de serem escutadas com atenção. O problema estará em saber quando ouvir um ou o outro. Porque não são raras as vezes que se contradizem...

Sinto muito!

Sinto muito e penso demasiado. Tento interpretar constantemente o que sinto e é aí que mora a dificuldade. É aí que travo batalhas interiores gigantes, porque o turbilhão de estímulos que o que sinto provoca causa o caos cá dentro. Sei que as novas tendências da "psicologia de pacote", aquela que nos aparece em vídeos nas redes sociais, nos vende a ideia de que o "overthinking" é mau, porque nos desconecta dos sentimentos e nos impede de desfrutar as emoções. Mas comigo não é assim. É precisamente o contrário. Porque nunca me consigo desconectar daquilo que sinto. E pensar serve (ou tenta servir) para conseguir compreender aquilo que sinto, o que nem sempre é bem sucedido. Infelizmente. No entanto, não é por pensar em demasia que deixo de sentir e seguir o que me diz o coração. Sigo-o sempre, mesmo que antes disso o tente calar. E tento, tento tanto e tantas vezes... No fim, e bem cá no fundo, sei que é ele que tem sempre razão. Porque se eu não o seguir, deixarei d...

Progresso

Temos a sensação que evoluímos muito, que as tecnologias nos vieram trazer progresso e grande desenvolvimento. No entanto, continuamos em rebanhos a caminhar para as fábricas de produção em massa. Já não produzimos maquinaria ou bugigangas, é certo. Agora produzimos clientes felizes. Construímos utilizadores bem contentinhos, a pensar que nos importamos francamente com os seus problemas.  A nós, querem-nos ovelhas que trabalhem ao ritmo da inteligência artificial, mas com sentimentos humanos. Bem empáticos, porém com o foco nas avaliações que nos irão dar pelas nossas oito horas na fábrica de satisfação do cliente (e que atentemos aos números, sempre os números que irão graduar a nossa competência). Entramos à hora certa e saímos à hora possível; preferencialmente tarde para mostrar que estamos muito concentrados no objectivo de ver o utilizador sorrir. Temos o almoço cronometrado e os minutos dos xixis contados, qual fábrica em plena revolução industrial. Cocó? Só em casa, pois de...

Poço básico

Fazem-me falta os animais.  Em tempos, tive gatos, cães e cavalos. Com a maior parte dos cães não consegui encontrar a expressão certa. Nunca nos entendemos bem, apesar de gostar muito deles. Apenas um entrou de rompante no meu peito e, acredito, eu no dele. Também tive peixes e pássaros, mas esses não me trazem qualquer saudade. Que me perdoem. Dos gatos e dos cavalos falta-me o pêlo, o cheiro, o toque. Até as lambidelas pelas línguas de lixa dos gatos me carecem. Dou-me bem com eles. Até com os desconhecidos. Somos iguais, funcionamos da mesma forma, entendemo-nos bem. Há qualquer coisa para além da linguagem na nossa comunicação. Como se houvesse muitas palavras não proferidas nos nossos olhares. Não sei explicar, mas é qualquer coisa como se lêssemos os pensamentos uns dos outros; como se, ao nos cheirarmos, olharmos, sentirmos, percebessemos tudo uns dos outros. Falamos telepaticamente, talvez, se é que isso é possível. Não acredito nestas coisas espirituais, mas, de certa for...

Tudo, ou quase tudo, de mim

Ando a ler um livro chamado "Tudo do amor" que me tem dado pontos de vista diferentes sobre o assunto. Assunto difícil, é certo, mas muito digno de reflexão. Ainda mais observando-o sob uma perspectiva da evolução histórica tanto da sociedade, quanto das estruturas familiares e das relações. Não sei se toda a gente tem, como eu, algumas ideias preconcebidas sobre o amor. Ideias do género: "o amor não se entende, sente-se"; "no amor vale tudo, é deixar ir e ver o que acontece"; "sentimentos não se explicam"; e por aí fora. Se tem, este livro vem pôr em causa algumas destas ideias. Não que cheguemos à conclusão que elas estão necessariamente erradas, não estarão, de certo, em algumas situações; ou não quer dizer que, depois de lermos o livro, deixemos de acreditar nelas, mas dá -nos muito que pensar. Isso, sem dúvida. Na verdade, muitas destas ideias que eu tinha (tenho), estão a sair reforçadas depois de ter chegado a meio do livro (no final, isto...

O vizinho

Oiço o vizinho ressonar. Todas as noites, o som do sono dele atravessa as paredes e invade-me o quarto.  É quase como se estivesse aqui ao lado, paredes meias comigo. Com o que estará a sonhar, perguntou-me amiúde...  Que aventuras, fruto da sua imaginação adormecida, o farão respirar tão ruidosamente? Estará a escalar montanhas neste preciso momento? Ou voará pelos céus julgando-se uma águia em busca de presas?  Fugirá, em risco de vida, de inimigos cruéis? Ou acreditará que se não chegar à superfície da água a tempo morrerá afogado? Ou terá, apenas, o cérebro afogado num imenso vazio? Quiçá nada disso. Dorme e pronto!

Felicidade tóxica

Estamos na Era das cenas tóxicas e da gratidão. Parece quase uma contradição, quando tudo é tóxico, termos de agradecer. Talvez seja por tudo ter, supostamente, um elevado potencial tóxico, que devemos agradecer quando somos abençoados pela ausência dessa maldita toxicidade. O encadeamento deste raciocínio até pode ter alguma lógica, mas se nos guiarmos por ele, tendemos a tornar-nos escravos - tanto da fuga à toxicidade alheia (porque geralmente é alheia e nós nunca somos os primeiros tóxicos da coisa), como da gratidão por termos de estar sempre gratos quando a nossa vida é isenta de algo "tóxico". Se não temos pessoas tóxicas, relações tóxicas, sentimentos tóxicos e/ou experiências tóxicas para combater, somos gente com umas vidinhas ocas e desinteressantes. Se somos os desinteressantes abençoados das vidas vazias, haverá sempre uma qualquer coisa potencialmente nociva da qual nos devemos esquivar para não sermos contagiados. Porque o importante é batalharmos para sermos f...