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Preconceituosa me confesso...

O título desta coisa que hoje vos escrevo é (caso ainda não tenham reparado) "Preconceituosa me confesso", no entanto vou começar este escrito informando-vos de que não sou nada preconceituosa. Contraditório, certo? Certo! Não sou preconceituosa (agora podia continuar a escrever mais uns quantos parágrafos a dizer a mesma coisa, do tipo "o título diz que sou preconceituosa, mas eu não sou" e isto seria uma dissertação digna de valor em algumas áreas profissionais, mas não vos vou maçar com isso, porque se há coisa que respeito são as palavras, vá, e as pessoas que se dão ao trabalho de ler as minhas. E já vão perceber porquê). Mas, voltando a este meu preconceito gingão...  Quando me confesso preconceituosa, digo que o sou porque, tal como adoro palavras e as respeito, há algumas que me provocam urticária e, por isso, torno-me altamente preconceituosa quanto a essas palavras impronunciáveis, e só as pronuncio se cobertas por uma grande camada de escárnio e incluídas...

Inteira

Quem me dera voltar atrás, ir lá longe buscar-me, onde me deixei em pedaços espalhados pelo chão. Juntá-los e reconstruir-me. Tornar-me inteira como um dia fui.

O amor é um lugar notável

Dos vários amores que nos passam pelo peito, há poucos que se demoram. Amor que resiste à corrosão do tempo é amor valente, que abarca virtudes e defeitos. Amar virtudes é tarefa fácil e imediata. Por outro lado, amar imperfeições é raro, árduo até. Pertence apenas a amores imensos como são os próprios, os paternais ou os amorosos raros. Se o amor paternal é o mais simples de chegar a qualquer um de nós, porque o ser pequenino e indefeso que gerámos nos faz produzir oxitocina a jorros sempre que o, sequer, imaginamos, já o próprio e o amoroso não são tão comuns.  O próprio pode requerer uma vida inteira de treino e labuta dolorosa para se conseguir, primeiro, aceitar e, depois apreciar, aquilo que consideramos deficiente em nós.  Não sendo impossível, é uma empreitada quase interminável.  Características físicas que não encaixam nos nossos parâmetros de beleza mais primários; ou psicológicas que não nos favorecem e que desejámos sempre mudar, só são passíveis de serem gos...

Caixinha pequenina

Quando isto chegar ao fim, vou guardar as memórias dentro de uma caixinha bem pequenina. Não que elas sejam poucas ou pequenas, mas para que mais ninguém consiga encontrar essa caixinha para além de mim. Quero as memórias encolhidas para não me fazerem sofrer. Servirão só para me alegrarem os dias tristes. Nesses em que abrirei a caixinha e espreitarei lá para dentro, sei que inspirarei bem fundo para lhes sentir o cheiro, levarei a lupa para lhes ver os pormenores e de certeza que nos encontrarei, minúsculos, mas abraçados. Com sorte, poderei prová-las. Porque as memórias boas têm gosto a horas bem passadas. E com mais sorte ainda, conseguirei até degustá-las, saborear-lhes o picante adocicado com que as deixámos. Mas não as deixarei quebrarem-me, isso não, porque na altura em que estiver pronta para abrir a caixinha, serei mais forte do que hoje e já terei aprendido a não sofrer de nostalgias ou amores perdidos. Nesse dia, que se aproxima, mas que ainda virá, já terei esquecido as má...

O espelho

Passei de não me querer olhar ao espelho para olhar e não me reconhecer. Se dantes era a imagem que me afastava, porque não me sentia bem naquele corpo, hoje são os sentimentos que não sinto como meus que ali se reflectem. Tento que me abandonem a todo o custo, mas perseguem-me pelos becos e ruelas por onde zigazeio para os despistar. São insistentes e parece que frequentaram um qualquer curso de detetive para me voltarem a encontrar. Já lhes disse que essa, que sente isso, não sou eu, mas não me acreditam e assombram-me sonhos e atravessam-se à frente daqueles que considero meus. É como se, em vez do corpo, fosse agora a alma que se me disforma. Os contornos são-me alheios, são de uma outra, cheia de desconfianças, de olhar por cima de ambos ombros, a temer o golpe fatal sobre a mínima felicidade ou satisfação que ousem aparecer. Pudesse eu arrancar estes sentimentos do peito, ou apagá-los do espelho, e talvez me voltasse a identificar na imagem que me olha, agora, com tristeza. Quem ...

No limbo

A vida passa-nos depressa ou devagar conforme o momento que estamos a viver é bom ou mau. Queremos prolongar os momentos bons, mas nem sempre o conseguimos. Eles são teimosamente curtos. Ainda mais quando temos consciência que irão ter um fim próximo... Tendemos ao sofrimento por antecipação, que pode ser ainda pior do que o sofrimento real. Porque nas nossas cabeças e corações pode acontecer tudo, o verdadeiro e o imaginário. Seria mais fácil se tivéssemos uma bola de cristal que nos permitisse ver o futuro e nos desse certezas. E, no entanto, o certo pode ser tão monótono e aborrecido que adormecemos no caminho e não saboreamos o presente. Como ficamos então? Ficamos assim, no limbo da vida, constantemente a desejar apressar ou retardar o tempo, a querer viver ou hibernar, consoante o sofrimento aperta ou a felicidade desperta. (Olha, até rimou!) Mas o tempo é imutável e não se compadece com as nossas necessidades. Alguns dirão felizmente, outros infelizmente, à vida ser tão somente ...

Incontinências da vida

Nem sempre nos conseguimos conter. A vida atravessa-nos obstáculos no caminho que nos impedem de experimentar a contenção. Não que bloquearmos as emoções ou fecharmo-nos em nós seja sempre positivo. Muitas vezes não é. Mas nalgumas situações ajudar-nos-ia a evitar a dor. A nossa e a dos outros. Vejo-me incontinente de emoções. Há apenas um vidro impecavelmente limpo entre o que sinto e o que transpareço. Sou emoção, muito mais do que raciocínio ou ponderação. E isso magoa, e saca lebres da toca. Levanta questões que só existiriam nos locais mais recônditos de mim se não as mostrasse, e que, quando visíveis no meu reflexo ou aos olhos dos outros, se tornam monstruosas. Tenho, por hábito ou defeito, a tendência de questionar tudo e duvidar até da minha própria sombra, o que associado à minha incontinência emocional, me torna algo parecido com uma bomba kamikaze. Pudesse eu explodir em qualquer lado,  escolheria que fosse para dentro.

Multidões sobre a cabeça

No fundo, nunca estamos completamente sozinhos. Talvez depois de morrermos, mas nunca antes disso. Há sempre um avião que atravessa os céus, cheio de gente dentro. Apercebi-me disto com o filme "Into the wild", que vi vezes sem conta. E desde aí, reparo sempre no céu quando me quero só. No filme, como na vida afinal, o protagonista, apesar de numa imensa solidão e "into the wild", tem sempre um avião a cruzar-lhe os céus.  Hoje, sempre que tento estar só, olho o céu para me certificar se há uma linha desenhada pelo passar de um avião. Se a vejo, e vejo-a quase sempre, penso na multidão que paira sobre a minha cabeça e me impede de estar realmente só. Talvez por sentir que esta solidão me é negada, tenha aprimorado o reflexo de me pôr para dentro. Cá dentro não há multidões. Sou só eu, às vezes múltiplas eu, mas apenas eu. Não sei se toda a gente tem esta necessidade de solidão. Mas parece-me que há pessoas que ou temem estar apenas consigo próprias e enfrentar o sil...

Pé na areia e mar ao pé

Pé na areia e mar ao pé. O som das ondas embalam -me os pensamentos. São tantos os que me assolam que fazem fila na correnteza da minha mente. Alguns ultrapassam outros e os outros tentam impor-se. "Eu estava primeiro, só podes chegar quando eu acabar!", parecem dizer. Mas eles não ouvem, eles só falam. Falam alto e correm uns atrás dos outros. Parecem pessoas na bicha do supermercado, com as compras nas mãos, na urgência de as pousarem na passadeira da caixa. Tenho pensamentos velhos e jovens, como os clientes de um supermercado.  Os velhos acham que já sabem tudo e, porque são velhos e sábios, têm prioridade perante os novos. Os jovens vêm cheios de certezas que descobriram a pólvora e que vão mudar o mundo tanto com a pólvora recém descoberta quanto com a sua frescura de jovens. Ambos estão certos e errados. Talvez por isso se tentem atropelar na minha cabeça. Mas perdem a razão quando não passam de pensamentos em fúria. Tal como os clientes do supermercado a lutar por um ...

Se o 25 de Abril fosse uma mulher

Se o 25 de Abril fosse uma mulher seria a minha avó. Liberdade seria Manuela, porque Manuela foi Liberdade. Durante toda a vida, de cravo ao peito, gritou Liberdade a plenos pulmões. No modo de vida, no corte de costumes bafientos, nas escolhas culturais fora de qualquer caixa, na aceitação do novo e do diferente, quando todos diziam ser um erro. Se não fosse esta Liberdade, os meus tios e a minha mãe não seriam quem são hoje e eu e os primos não seríamos feitos desta imensa variedade. Para se ser Liberdade também é preciso ser-se Coragem e a minha avó uniu as duas nela. Coragem de quebrar a norma por valores que cria altos - e ela quebrou umas tantas. Valores como a igualdade, a justiça, a fraternidade, a solidariedade... Se pudéssemos dar um nome ao 25 de Abril, esse nome seria Manuela.

Falta de material

Trago sempre duas canetas comigo. Como quem tem medo de perder a hipótese de escrevinhar qualquer coisa por falta de material de escrita (como se precisassemos delas, com telefones sempre disponíveis para tudo. Mas, enfim, sou antiga).  Hoje, tenho duas a falhar e isso incomoda-me. Uma, porque está no fim, a outra porque está no princípio e ainda tem a esfera perra. Chateia-me que não escrevam quando quero, porque como escrevo ao ritmo dos pensamentos, se falham perco o fio à meada. Se já sou de comer palavras e, especialmente, perder determinantes pelo caminho, com as canetas assim ainda é pior. Além de palavras e determinantes em falta, fico com eles apenas escritos pela metade. Porra, falhou outra vez! A que está no fim já vai para o lixo. A outra tenho de andar sempre a massajar-lhe a esfera, a ver se escreve. Canetas sensíveis dá nisto! Precisam de massagens para trabalharem razoavelmente. Ok, desisto. Vou ali comprar mais umas tantas que isto está a irritar-me. Até logo!

Entre o gel de banho e a água

Escrevo dentro da minha cabeça. Escrevo muito em silêncio, sem estar a escrever efectivamente. Por isso me é tão difícil. Quando estou de caneta na mão, é como se os textos jorrassem para a caneta. Mas ela nem sempre os consegue acompanhar. Eles vêm em catadupa e a mão e a caneta não são suficientemente rápidas. Às vezes, escrevo enquanto estou no duche, sem caneta ou papel que me valham. Saem-me escritos bem articulados, com princípio, meio e fim, enquanto ensaboouo o corpo ou lavo o cabelo. Depois ficam por ali, porque não consegui passá-los para o papel a tempo. E nunca mais os recupero. Ficam perdidos entre o gel de banho e a água que corre sobre o meu corpo. Alguns vão mesmo ralo abaixo. Seguem para o tratamento de águas residuais e nunca mais ninguém os vê. Tal como me acontece com a caneta na mão. Tenho textos perfeitos no meu cérebro, mas ficam uma merda no papel. Aqui, quero acreditar que talvez o problema esteja na minha destreza manual que não é muito apurada. Ou tento acred...

Poesia

E de repente, vês a poesia entrar na tua vida. Não a poesia das rimas, da métrica, ou dos versos. Mas a poesia dos sentidos. Vês poesia em tudo o que te circunda. Está no céu azul ou cinzento, nas nuvens, no sol e na lua. Está na terra batida ou no alcatrão. Está nos animais, nas plantas e até nas pessoas. Vê só, até nas pessoas. No fundo, ela está é em ti. Deixaste-a entrar num momento qualquer que, se calhar, nem consegues precisar e ela alojou-se em ti como se fosses a sua casa e por aí ficou, meia feita inquilina, meia senhoria. Agora, abres os olhos ou apuras os ouvidos, inspiras na procura de novos aromas ou tocas o vazio e ela está lá. Vem de dentro para fora, por isso, pode instalar-se em tudo o que te envolve. Às vezes, instala-se também naquilo que não queres. Mas aí, já não és tu que mandas, é ela, que agora é dona e senhora de ti.

Iliteracia fotográfica

Reparo, e reparo bastante porque é um assunto que me interessa, que as pessoas no geral não sabem ler fotografia. Não sou uma especialista no tema, mas gosto de fotografia. Tem um encanto muito parecido com o das letras. Dizem-se coisas para lá do que está escrito. Dependendo da arte do fotógrafo uma fotografia não é só uma chapa, uma imagem. É algo mais. Tal como na literatura, um texto pode não ter apenas uma leitura, pode ter várias, milhares de leituras. Depende do autor, mas também depende de quem lê. Tal como na fotografia depende do fotógrafo, mas também de quem vê. E as pessoas têm pouca acuidade visual no que diz respeito à fotografia. Não vêem nada.  Se estamos mais treinados a ler nas entrelinhas dos textos, porque a escola nos ensinou (sim, a escola ensinou-nos algumas coisas de muito valor), quando tentamos ler uma fotografia, não vemos nada para além do que nos  é estampado à frente dos olhos. E isso entristece-me. Porque acho que quem não vê mais do que a sua pr...

Para congelamento

Deus, Alá, Jah, Buda, Natureza, Shiva, Universo, Terra ou qualquer outro nome que lhes dêem só têm poder dentro da nossa cabeça. Talvez o maior deus de todos eles sejamos nós próprios e a nossa incansável capacidade de imaginar e acreditar. Se cremos muito, agimos de acordo e essa acção, mais cedo ou mais tarde, poderá ajudar a realizar aquilo que tanto desejamos. Ou não. Às vezes, a acção faz com que o que não queremos se realize. Ou até as circunstâncias da vida, aquilo que nos é completamente alheio, não permite. E aí achamos que não rezámos o suficiente ou não acreditámos o suficiente. No fundo, desculpamos sempre o nosso deus da incompetência de não cumprir o desígnio. Isto se temos uma religião. Quando não há religião que nos valha, temos depressões, porque sabemos  que a, quase, totalidade da responsabilidade do que não correu como queríamos é nossa.  Claro, que podemos também agarrar-nos ao chamado "destino" (outro deus) e justificar o insucesso com a acção dele. ...